Educação

Foto: Antônio Fernandes Góes Neto/USP
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Experiências plurilíngues no Rio Negro articulam currículo, saberes tradicionais e economia comunitária

O povo Baniwa, que habita a região das fronteiras do Brasil, Colômbia e Venezuela, está promovendo uma revolução educacional por meio de escolas indígenas plurilíngues. Com cerca de 20 mil pessoas distribuídas entre aldeias e centros urbanos como São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos, os Baniwa têm usado a educação para resgatar língua, cultura e economia local, superando séculos de violência colonial, exploração e apagamento cultural.

O modelo, iniciado no final dos anos 1980, combina currículo escolar com projetos de cadeias de valor e saberes tradicionais, permitindo que os estudantes permaneçam nas comunidades e obtenham renda. O pesquisador Antônio Fernandes Góes Neto, da Universidade de São Paulo (FE-USP), estudou essas práticas e destacou que as escolas Baniwa e Koripako funcionam como instrumentos de reapropriação do território e fortalecimento comunitário.

“A escola deixa de ser um espaço de vigilância moral e se torna um laboratório de invenção, onde livros, jogos, mapas, vídeos e artesanato são produzidos a partir da pesquisa dos próprios alunos”, explica Góes Neto. Os estudantes aprendem na prática: trilham roças, pescam, entrevistam mais velhos e registram seus achados nas línguas Baniwa, Koripako ou Yẽgatu, transformando essas atividades em material didático comunitário.

O resgate cultural inclui produção artesanal, como cestaria com motivos tradicionais, produção da pimenta jiquitaia e turismo étnico, integrando trilhas, culinária e leitura da paisagem. A incorporação de novos saberes permite gerar alternativas econômicas sustentáveis, mantendo os jovens engajados nas comunidades.

A iniciativa também valoriza a espiritualidade ancestral e o xamanismo, historicamente estigmatizados por missões religiosas. Comunidades como Ucuqui-Cachoeira e Assunção do Içana lideram processos de revitalização de práticas xamânicas e da língua Baniwa, contando com projetos como a Escola Viva, que integra ensino formal e saberes tradicionais.

O trabalho das escolas indígenas Baniwa está conectado à organização comunitária e política da região, com entidades como a Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) e associações locais articulando educação, cultura e governança. O esforço é reconhecido como um exemplo de como a educação escolar indígena pode ser vetor de inovação social, fortalecendo a identidade, a economia e a sustentabilidade cultural.

Segundo Góes Neto, “inovação, aqui, não é engenhoca; é agência coletiva para resolver problemas reais”, mostrando que a escola indígena pode transformar a educação em ferramenta de empoderamento e preservação cultural.

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