Encontro promovido pelo TRT-11 e TJAM reuniu representantes do Judiciário, universidades e movimentos sociais para discutir direitos, combate à discriminação e acesso ao mercado de trabalho
A trajetória da multiartista e ativista trans Tereza Manicongo marcou a abertura do 2º Ciclo Pelo Orgulho e Pela Diversidade no Poder Judiciário do Amazonas, realizado nos dias 9 e 10 de julho pelo Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região (TRT-11) e pelo Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM). O evento reuniu magistrados, pesquisadores, representantes de movimentos sociais e instituições públicas para discutir inclusão, empregabilidade e enfrentamento à discriminação contra a população LGBTQIAPN+.
Aos 25 anos, Tereza compartilhou sua história de vida durante a cerimônia de abertura, recitando poemas autorais e relatando as dificuldades enfrentadas desde a infância. Expulsa de casa após assumir sua identidade como mulher trans, encontrou na arte um caminho para reconstruir a própria trajetória e atuar como artista visual, escritora, performer, produtora cultural e ativista.
“Resolvi sair de vez com 20 anos. As coisas sempre parecem muito difíceis, mas a gente precisa continuar tentando e não desistir do que a gente é”, afirmou.
A realidade vivida por Tereza reflete um cenário apontado por pesquisas apresentadas durante o evento. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) mostram que a maioria das vítimas de violência contra pessoas trans no Brasil são mulheres trans e travestis jovens, negras ou pardas. Outro levantamento da entidade indica que cerca de 90% das mulheres trans e travestis têm na prostituição sua principal fonte de renda, enquanto apenas uma pequena parcela está inserida no mercado formal de trabalho.
Segundo o gestor do Comitê de Equidade, Raça e Gênero do TRT-11, juiz André Fernando dos Anjos Cruz, o encontro buscou aprofundar o debate sobre as diferentes formas de discriminação enfrentadas por grupos historicamente vulnerabilizados.
No primeiro dia, as discussões abordaram temas como nome social, uso de banheiros públicos, direitos da população trans e políticas antidiscriminatórias. Já a programação do segundo dia concentrou-se na empregabilidade, no empreendedorismo e nos desafios enfrentados por pessoas trans para acessar o mercado de trabalho.
Representando a Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Amazonas (Assotram), Nalud Annihs destacou que a exclusão social começa ainda na infância e compromete o acesso à educação, refletindo posteriormente nas oportunidades profissionais.
“A violência e a expulsão de casa dificultam a permanência na escola e o ingresso na universidade, criando um ciclo de exclusão que afeta toda a vida dessas pessoas”, afirmou.
O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Thiago Galeão, apresentou durante o evento a política antidiscriminatória da Faculdade de Direito, criada para acolher denúncias de assédio e discriminação e fortalecer mecanismos institucionais de proteção à diversidade.
Além dos debates, a programação incluiu orientação jurídica gratuita, ações de saúde com testagem para HIV, distribuição de preservativos e informações sobre prevenção, além de uma feira organizada pelo coletivo Empregay, voltado à inclusão produtiva, empregabilidade e fortalecimento do empreendedorismo da comunidade LGBTQIAPN+.
Para os organizadores, o encontro reforça a necessidade de ampliar políticas públicas e ações institucionais que promovam igualdade de oportunidades, combate à discriminação e acesso ao trabalho digno para a população trans no Amazonas.


