Empresa pretende instalar unidade de síntese de DNA no Centro de Bionegócios da Amazônia, em Manaus, com foco em automação, proteínas e inteligência artificial
A empresa brasileira de biotecnologia BioLinker foi selecionada para instalar uma unidade de síntese de DNA no Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), em Manaus. O projeto prevê o uso de automação e inteligência artificial para desenvolver proteínas e acelerar pesquisas científicas. A iniciativa busca ampliar a presença da região nas cadeias de inovação, mas ainda está em fase de estruturação e depende da implantação do laboratório para que seus resultados sejam avaliados.
A seleção ocorreu por meio do Edital CBA Open nº 1/2026, que também contemplou a empresa Amazonzyme Biotecnologia para integrar o Espaço CBA de Inovação.
Fundada em 2018 por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), a BioLinker tem sede em Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo. A companhia trabalha com DNA sintético, proteínas recombinantes e inteligência artificial aplicada à bioengenharia, além de oferecer serviços para pesquisa e desenvolvimento de produtos biotecnológicos.
Investimento anunciado é de R$ 8,4 milhões
A expansão da empresa foi anunciada após uma captação de R$ 8,4 milhões. Desse total, R$ 7,2 milhões vieram de um fundo da Axcell, aceleradora voltada a negócios relacionados à Amazônia, enquanto R$ 1,2 milhão são provenientes da segunda fase do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Os recursos têm origens e finalidades diferentes. O investimento da Axcell corresponde a um aporte na empresa, enquanto o financiamento do PIPE é destinado à pesquisa científica ou tecnológica desenvolvida por pequenas empresas no estado de São Paulo. Por isso, ainda não é possível afirmar que todo o montante será aplicado na unidade de Manaus.
Como funcionará o laboratório
O projeto prevê a síntese automatizada de DNA, a produção de proteínas e o uso de inteligência artificial para analisar resultados de experimentos. O DNA sintético consiste em sequências produzidas em laboratório que podem ser utilizadas como instruções para desenvolver sistemas biológicos capazes de produzir proteínas, enzimas e outros compostos.
A unidade deverá empregar a chamada triagem de alto rendimento, técnica que permite testar diversas sequências e condições experimentais em menos tempo e com maior padronização. Os resultados poderão alimentar modelos de inteligência artificial para identificar padrões e selecionar combinações promissoras.
A tecnologia pode reduzir o número de tentativas e acelerar etapas de pesquisa, mas os resultados ainda precisam passar por validação científica.
Segundo Mona Oliveira, fundadora e diretora-presidente da BioLinker, a empresa pretende trabalhar principalmente com informações genéticas de bactérias e bacteriófagos, vírus que infectam bactérias. As sequências sintetizadas poderão ser utilizadas no desenvolvimento de proteínas.
A companhia também pretende ampliar a capacidade nacional de produção de DNA. A avaliação de que o Brasil ainda depende de fornecedores estrangeiros para obter esse material em escala comercial foi apresentada pela própria empresa e deverá ser analisada conforme a operação avance.
Desafio é manter conhecimento e renda na Amazônia
A instalação do laboratório em Manaus abre a possibilidade de aproximar pesquisadores locais de equipamentos e técnicas avançadas de biotecnologia. Entretanto, a presença física da empresa não garante, por si só, que o conhecimento científico, as patentes e os resultados econômicos permanecerão no Amazonas.
O impacto regional dependerá de fatores como contratação de profissionais locais, parcerias com universidades e instituições de pesquisa, formação de especialistas, desenvolvimento de produtos e criação de empresas fornecedoras.
A definição sobre a propriedade intelectual também será importante. A instalação no CBA não torna automaticamente o Centro proprietário das patentes, dos processos ou das tecnologias desenvolvidas pela empresa. Os direitos dependerão da participação de cada instituição, dos investimentos e dos contratos firmados nos projetos.
O Amazonas reúne universidades, instituições de ciência e tecnologia e pesquisas sobre a biodiversidade regional. Um dos desafios é transformar esse conhecimento em produtos, negócios e empregos especializados.
Entre a identificação de um organismo e a comercialização de um produto, há etapas que incluem sequenciamento genético, análise de dados, desenvolvimento de moléculas, testes, produção em escala, regularização e proteção intelectual. Ampliar a participação de instituições amazonenses nessas fases pode aumentar a parcela do valor econômico gerado que permanece na região.
Projeto se conecta aos investimentos em inovação da Zona Franca
A iniciativa também se relaciona ao ambiente de investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) associado à Zona Franca de Manaus.
A Lei nº 8.387/1991 estabelece obrigações de investimento em PD&I para empresas de determinados segmentos de bens de tecnologia da informação e comunicação que recebem os benefícios previstos na legislação. Entre as modalidades permitidas estão os investimentos em programas prioritários definidos pelo Comitê das Atividades de Pesquisa e Desenvolvimento na Amazônia (Capda).
Um desses programas é o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), coordenado pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam). A iniciativa apoia projetos e negócios relacionados à bioeconomia, incluindo áreas como biologia sintética, bioinformática, novos materiais e aproveitamento de resíduos.
Segundo as informações divulgadas sobre a captação, o fundo da Axcell reúne recursos de empresas vinculadas a esse ambiente de investimentos. A conexão evidencia uma possibilidade de direcionar parte dos recursos associados ao modelo industrial para negócios baseados em ciência e tecnologia.
A biotecnologia pode contribuir para diversificar a economia amazonense, historicamente marcada pela produção de motocicletas, televisores, celulares, aparelhos de ar-condicionado e componentes eletrônicos no Polo Industrial de Manaus. Para isso, será necessário transformar resultados científicos em soluções que atendam às demandas do mercado e tenham viabilidade econômica.
Empresa pretende ampliar equipe
A BioLinker informou que pretende aumentar o quadro de funcionários de 12 para 24 colaboradores nos próximos meses. A empresa, porém, ainda não detalhou quantas vagas serão destinadas à operação em Manaus.
Uma unidade desse tipo pode demandar biólogos, biomédicos, bioquímicos, engenheiros de bioprocessos, especialistas em automação, programadores, cientistas de dados e profissionais de bioinformática.
A contratação de profissionais formados no Amazonas e a participação de estudantes e pesquisadores locais poderão ampliar os efeitos do empreendimento na economia regional. Para isso, parcerias acadêmicas, bolsas de pesquisa e oportunidades de formação técnica serão importantes.
Uso da biodiversidade exige controle e repartição de benefícios
A produção de DNA sintético não implica automaticamente acesso ao patrimônio genético brasileiro. As exigências legais dependem da origem das sequências utilizadas e das atividades realizadas pela empresa.
Quando houver acesso ao patrimônio genético da biodiversidade brasileira ou ao conhecimento tradicional associado, deverão ser observadas a Lei nº 13.123/2015 e sua regulamentação, que estabelecem regras para pesquisa, desenvolvimento tecnológico e exploração econômica.
Nos casos previstos na legislação, as atividades precisam ser cadastradas no Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (SisGen). A exploração econômica de determinados produtos também pode gerar obrigações de notificação e repartição de benefícios.
Projetos que envolvam conhecimentos tradicionais devem respeitar os direitos dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e dos agricultores tradicionais. Também será necessário observar as normas de biossegurança, rastreabilidade e proteção de dados.
Resultados dependerão da execução
A chegada da BioLinker ao CBA representa uma possibilidade de ampliar a infraestrutura de pesquisa e inovação em Manaus, mas os efeitos econômicos e científicos ainda não estão definidos.
A avaliação do projeto dependerá da instalação e do funcionamento do laboratório, da criação de empregos especializados, das parcerias com instituições amazonenses, dos produtos desenvolvidos e dos investimentos efetivamente realizados na região.
O principal desafio será transformar a presença da empresa em participação efetiva do Amazonas na produção de conhecimento, no desenvolvimento tecnológico e na geração de renda. Mais do que receber equipamentos, a região precisará integrar pesquisadores, instituições e empresas para ampliar sua presença nas etapas de maior valor das cadeias de inovação.
Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.



