Apenas 8,1% dos resíduos têm destinação adequada; ausência de aterros sanitários e predominância de lixões agravam cenário
O Amazonas é o estado brasileiro com o pior índice de destinação correta de resíduos sólidos, com apenas 8,1% do lixo tratado de forma adequada. O dado contrasta com a média nacional, que chega a 61,1%, segundo a 2ª edição do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, divulgado pelo Centro Brasil Clima e pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS).
O manejo inadequado dos resíduos tem impacto direto nas mudanças climáticas. Isso porque o descarte em lixões ou aterros sem controle gera emissão de gases de efeito estufa, como o metano, além da liberação de poluentes com a queima irregular de lixo.
Para o especialista do iCS, Roberto Kishinami, a situação reflete falhas estruturais e comportamentais. “A ausência de tratamento responsável dos resíduos é um indicador de como políticas públicas e hábitos coletivos contribuem para a crise climática”, afirmou.
Cenário crítico
Atualmente, nenhum dos 62 municípios do estado possui aterro sanitário. Em Manaus, a destinação ocorre em um aterro controlado construído sobre um antigo lixão, enquanto no interior predomina o descarte em áreas a céu aberto.
Além disso, apenas 31% dos municípios contam com Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, e a coleta seletiva está presente em apenas 19% das cidades. O índice de reciclagem no estado não chega a 1%.
Segundo o especialista Daniel Santiago, a falta de planejamento e recursos dificultou avanços na área. “O Marco do Saneamento previa o fim dos lixões até 2024, mas nenhum município conseguiu cumprir”, destacou.
Cobrança e fiscalização
A falta de gestão adequada tem gerado pressão de órgãos de controle. O Ministério Público de Contas (MPC) tem acionado o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) para cobrar soluções. Nesta semana, o prefeito de Atalaia do Norte foi multado por irregularidades na gestão de resíduos.
O Ministério Público do Amazonas (MPAM) também recomendou a intensificação da fiscalização, com foco na existência de lixões, regularização ambiental e implementação de planos municipais.
Caminhos possíveis
De acordo com o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), apenas oito municípios — entre eles Coari, Itacoatiara e Parintins — produzem mais de 20 toneladas de resíduos por dia, o que abre espaço para soluções como economia circular e compostagem.
Especialistas defendem a criação de polos regionais de tratamento de lixo, com gestão integrada entre municípios, além do fortalecimento de cooperativas de catadores e do incentivo à reciclagem.
A Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema) informou que tem apoiado prefeituras com capacitações, planejamento e articulação institucional, além de parcerias voltadas à inclusão de catadores e ao fortalecimento da economia circular.
Mesmo com iniciativas em andamento, o desafio permanece: estruturar políticas públicas eficientes para reduzir impactos ambientais e melhorar a gestão de resíduos no estado.



