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Foto: Pedro Nassar
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Pesquisa inédita revela pressão crescente de hidrelétricas, garimpo e desmatamento sobre várzeas e igapós, essenciais para a biodiversidade e comunidades tradicionais

As áreas úmidas do Amazonas — como várzeas e igapós — estão entre os ecossistemas mais ameaçados da região. O alerta consta no estudo “Desafios e oportunidades para a proteção, conservação e manejo de áreas úmidas do bioma Amazônia”, publicado em janeiro deste ano, que chama atenção para a intensificação de impactos provocados por hidrelétricas, garimpo e desmatamento.

A pesquisa inédita foi desenvolvida por pesquisadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Instituto Socioambiental (ISA). O levantamento aponta que cerca de 18% da Amazônia é formada por áreas úmidas, ambientes fundamentais para o equilíbrio ecológico do bioma e para a subsistência de milhares de famílias ribeirinhas e povos tradicionais.

Ecossistemas como várzeas, igapós e manguezais estão entre os mais vulneráveis às mudanças climáticas. O avanço do desmatamento agrava ainda mais o cenário: entre 2020 e 2024, aproximadamente 290 mil hectares de áreas úmidas foram destruídos em toda a Amazônia.

O estudo também destaca o impacto do garimpo ilegal. Amostras de peixes coletadas em municípios do Amazonas apresentaram níveis de mercúrio acima do limite aceitável pela Organização Mundial da Saúde (OMS), colocando em risco a saúde de populações que dependem do pescado como principal fonte de alimentação. A exploração madeireira é outro fator de pressão, especialmente sobre as várzeas, que concentram uma das maiores diversidades biológicas do planeta.

Segundo os pesquisadores, a degradação acelerada desses ambientes pode ser um sinal precoce de que o equilíbrio da Amazônia está sendo comprometido.
“Uma das hipóteses que estamos avaliando é o papel das áreas úmidas da Amazônia como o primeiro sinal de pontos de não retorno no bioma. Essas áreas podem dar o alarme de que já possamos estar cruzando um limiar de risco altíssimo”, explica Carlos Souza Jr., pesquisador do Imazon.

Proteção insuficiente

Além de abrigarem espécies únicas de peixes e aves, as áreas úmidas amazônicas garantem qualidade de vida às comunidades tradicionais, fornecendo água, alimento e meios de subsistência como a pesca. Esses ecossistemas também funcionam como importantes estoques de carbono e atuam como filtros naturais da água.

Apesar de sua relevância ambiental e social, o estudo revela que apenas 53,7% das áreas úmidas da Amazônia estão inseridas em territórios protegidos. No Amazonas, destacam-se os Sítios Ramsar, como o Mosaico do Rio Negro, considerado o maior do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares. Essas áreas são reconhecidas internacionalmente por sua importância na conservação da biodiversidade e na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.

Para especialistas, ampliar a proteção desses territórios é uma medida urgente.
“Destinar áreas para conservação, em especial as áreas úmidas, é fundamental porque esses territórios sustentam processos ecológicos essenciais para a Amazônia. Em um contexto de mudanças climáticas, ignorar o papel das áreas úmidas aumenta a vulnerabilidade da Amazônia e das populações que dependem desses territórios”, afirma Cícero Augusto, analista GIS do ISA.

O estudo reforça que proteger várzeas e igapós não é apenas uma estratégia ambiental, mas uma condição necessária para garantir o futuro da Amazônia e de quem vive dela.

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