Semsa capacitou equipes da Ufam e do Hospital Militar para oferecer a PrEP; previsão é que os medicamentos estejam disponíveis nas instituições ainda em 2026
Manaus está ampliando o acesso à Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP), método preventivo oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) iniciou a capacitação de instituições parceiras para levar o serviço a novos públicos. A previsão é que os medicamentos comecem a ser disponibilizados nesses locais ainda este ano.
A primeira instituição a receber o treinamento, em outubro, foi o Centro de Atenção Integral à Saúde (Cais), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), na zona Oeste da capital. O espaço atende estudantes, servidores e moradores de bairros próximos. Nesta terça-feira (3), a capacitação foi realizada no Hospital Militar de Área de Manaus (HMAM), que atende militares e seus familiares.
“O Núcleo de Controle de HIV/Aids, ISTs e Hepatites Virais da Semsa está em um processo ativo de expansão de unidades capacitadas para esse método de prevenção. Nessa tônica, temos procurado outros parceiros fora da rede municipal, visando justamente capilarizar o acesso aos métodos de prevenção”, afirma o médico infectologista Bruno Jardim, integrante do núcleo.
A PrEP consiste no uso de medicamentos antirretrovirais para reduzir o risco de infecção pelo HIV antes de uma possível exposição ao vírus. O método está disponível gratuitamente pelo SUS e pode ser utilizado de duas formas: diariamente ou sob demanda. A indicação depende de avaliação individual e de critérios clínicos.
Prevenção combina diferentes estratégias
A PrEP faz parte da estratégia de prevenção combinada do Ministério da Saúde, que reúne diferentes métodos para reduzir a transmissão do HIV e de outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). A proposta considera as necessidades e vulnerabilidades de cada pessoa.
Além da PrEP, a estratégia inclui o uso de preservativos internos e externos, a testagem regular, o diagnóstico e tratamento de ISTs, a vacinação contra HPV e hepatites A e B e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP). Essa última deve ser iniciada em até 72 horas após uma possível exposição ao HIV.
O tratamento de pessoas que vivem com HIV também integra as medidas de prevenção. Com o acompanhamento adequado, quem mantém a carga viral indetectável não transmite o vírus por via sexual.
A prevenção combinada contempla ainda ações para evitar a transmissão vertical, durante a gestação, o parto e a amamentação, além de estratégias de redução de danos associadas ao uso de substâncias psicoativas.
Serviço já está disponível em 16 unidades
Atualmente, a PrEP é ofertada em 16 unidades de saúde da Atenção Primária em Manaus. Desse total, 14 estão distribuídas pelos distritos de saúde da zona urbana. O serviço também chegou às duas unidades fluviais da Semsa, que percorrem as calhas dos rios Negro e Amazonas para atender comunidades ribeirinhas.
Qualquer pessoa interessada pode procurar uma das unidades para receber orientações, realizar os testes necessários e passar por avaliação de saúde. Se atender aos critérios de indicação, poderá iniciar o uso do medicamento com acompanhamento profissional.
A relação dos locais de atendimento está disponível no site da Semsa.
Segundo Bruno Jardim, a descentralização tornou o acesso à prevenção mais próximo da população. Antes, o atendimento estava concentrado principalmente na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD).
“Principalmente de 2023 para cá, a gente vem num processo de descentralização muito intenso na oferta de PrEP”, destaca o infectologista.
Capacitação prepara equipes do Hospital Militar
O treinamento realizado no HMAM reuniu médicos, enfermeiros, farmacêuticos, técnicos de enfermagem e odontólogos. O objetivo é preparar os profissionais para uma futura implantação do serviço na unidade.
Durante a capacitação, Bruno Jardim apresentou dados epidemiológicos sobre HIV e Aids em Manaus e explicou os métodos de prevenção combinada. Também foram abordados critérios de indicação e contraindicação da PrEP, dosagens, modalidades de uso e orientações para o acompanhamento dos pacientes.
“A gente também apresenta sugestões de fluxo de atendimento, fornece materiais de apoio, protocolos, manuais e formulários úteis”, explica o médico.
A proposta de implantação do serviço no hospital surgiu após uma conferência em Brasília, que discutiu estratégias de prevenção ao HIV, incluindo a PrEP e a PEP.
A infectologista do HMAM, tenente Karina Gonçalves, participou da articulação com a Semsa e afirma que o encontro motivou a direção da unidade a buscar novas ações, como testagem, campanhas educativas e oferta da profilaxia.
“A partir dessa iniciativa, foram realizados contatos com representantes da saúde municipal e estadual, que resultaram em reuniões para discutir as possibilidades de implantação do serviço e a realização das capacitações. É um sonho que está se tornando realidade”, comemora.
Implantação depende de articulação entre órgãos
A oferta da PrEP nas instituições parceiras exige procedimentos conjuntos entre o Ministério da Saúde, a Semsa e a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-RCP).
O Núcleo de Controle de HIV/Aids, ISTs e Hepatites Virais da Semsa atua como apoio técnico, orientando as unidades sobre os fluxos de atendimento e acompanhamento dos pacientes.
Além da capacitação dos profissionais, é necessário cadastrar a unidade no sistema específico de dispensação de medicamentos e indicar um responsável técnico pelo serviço.
A distribuição dos medicamentos para instituições externas à rede municipal, como a Ufam e o Hospital Militar, ficará sob responsabilidade da FVS-RCP, vinculada à Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM).
Manaus tem segunda maior taxa de detecção de Aids entre capitais
A ampliação dos serviços de prevenção ocorre em um cenário de preocupação epidemiológica. Segundo o Boletim Epidemiológico de HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, Manaus registrou, em 2024, a segunda maior taxa de detecção de Aids entre as capitais brasileiras: 53,4 casos por 100 mil habitantes. O índice ficou atrás apenas de Belém (PA). No mesmo período, a taxa nacional foi de 17,4 casos por 100 mil habitantes.
Para o infectologista Bruno Jardim, ampliar o acesso à informação e aos métodos de prevenção é fundamental para mudar esse cenário.
“Esse trabalho de comunicação, de expandir o acesso à informação sobre prevenção é fundamental para que a gente possa garantir mudar esse cenário”, conclui.



