Rendimento-hora médio é de R$ 12,70 — o menor entre as regiões brasileiras. Apesar dos baixos ganhos, o número de plataformizados cresceu 56% em dois anos
Os trabalhadores de aplicativo da Região Norte são os mais mal remunerados do Brasil, segundo o levantamento Trabalho por Meio de Plataformas Digitais 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com a pesquisa, o rendimento-hora médio dos plataformizados é de R$ 12,70, valor inferior ao do Nordeste (R$ 13), Sudeste (R$ 15,40), Sul (R$ 18,50) e Centro-Oeste (R$ 18,30). A renda mensal média também é a mais baixa do país: R$ 2.273. No Centro-Oeste, que lidera o ranking, o valor chega a R$ 3.538.
Mesmo com o rendimento reduzido, a região registrou crescimento de 56% no número de trabalhadores de aplicativo — saltando de 79 mil em 2022 para 124 mil em 2024.
O geógrafo Adjalma Nogueira, coordenador da divulgação da pesquisa no Amazonas, destaca que o aumento revela uma nova fronteira de expansão para esse tipo de trabalho.
“Embora o Norte ainda tenha menos trabalhadores plataformizados que outras regiões, o segmento está se tornando dinâmico e crucial para o mercado local. Essa aceleração reflete a busca por alternativas de renda diante de mercados tradicionais mais frágeis e informais”, explica.
Longas jornadas e ganhos baixos
A pesquisa aponta que os trabalhadores de aplicativo cumprem, em média, 44,8 horas semanais — acima da média dos demais ocupados, de 39,3 horas. No Norte, a carga é um pouco menor, 41,4 horas semanais.
O presidente da Associação de Motoristas de Aplicativo de Manaus, Alexandre Matias, diz que a rotina é puxada e, muitas vezes, sem retorno financeiro proporcional.
“Aqui a renda é menor porque não temos os mesmos modais de transporte que outras regiões, como corridas executivas. Além disso, a entrada das motos fez o rendimento cair muito. A gente até pode ganhar mais que alguns assalariados, mas às custas de muito mais trabalho”, afirma.
Segundo ele, muitos motoristas acumulam mais de uma atividade para complementar a renda.
Falta de proteção social
Outro dado que preocupa é a baixa contribuição previdenciária. Apenas 15,4% dos trabalhadores de aplicativo no Norte contribuem com o INSS, bem abaixo dos 51,8% registrados no Sul.
“A contribuição quase inexistente mostra uma crise na formalização e na proteção social. A maioria está totalmente desprotegida contra acidentes, doenças ou aposentadoria”, alerta Nogueira.
Para Alexandre Matias, a situação é reflexo de um modelo desigual, em que as plataformas transferem os riscos para os trabalhadores.
“As empresas ganham dinheiro e não têm nenhuma responsabilidade sobre o funcionário. O motorista precisa pagar até o próprio plano de saúde, enquanto elas usam os serviços públicos como o SUS, sem contribuir com nada”, critica.
Predomínio do transporte por app
O IBGE aponta que 53,1% dos trabalhadores de plataforma atuam em aplicativos de transporte de passageiros, seguidos pelos de entrega de comida e produtos (29,3%), prestação de serviços gerais (17,8%) e apps exclusivos de táxi (13,8%).
Para Adjalma Nogueira, a predominância dos motoristas reflete a natureza urbana e de mobilidade da economia de plataformas no Norte.
“A região ainda está mais voltada para serviços de transporte do que para logística de e-commerce”, avalia.
O estudo reforça a necessidade de regulamentação e proteção trabalhista para os profissionais que sustentam o crescimento dessa nova forma de ocupação — cada vez mais presente e essencial na economia regional.



