Política e Economia

Foto: Junio Matos
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Pesquisa aponta que 62% dos trabalhadores recorreram a atividades extras nos últimos 12 meses, enquanto percepção de aumento da renda subiu de 12% para 18%

Seis em cada dez trabalhadores de Manaus precisaram recorrer a alguma atividade extra para complementar a renda nos últimos 12 meses. O percentual chegou a 62%, segundo a pesquisa “Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social”. Apesar de ainda representar uma parcela significativa, o índice caiu sete pontos percentuais em relação a 2025, quando 69% dos entrevistados afirmaram ter feito “bicos” ou “freelas” para reforçar o orçamento.

O levantamento foi realizado pelo Instituto Cidades Sustentáveis e pela Ipsos-Ipec, com apoio da Fundação Grupo Volkswagen e cofinanciamento da União Europeia. A pesquisa ouviu 3.500 pessoas de forma online em dez capitais brasileiras.

Entre os manauaras que buscaram atividades extras, 18% fizeram serviços gerais, o mesmo percentual vendeu roupas e outros artigos usados. Outros 10% realizaram trabalhos manuais, enquanto 8% recorreram à revenda de cosméticos e produtos de beleza ou à produção de alimentos em casa para comercialização. Já 7% fizeram trabalhos como motoristas ou entregadores por aplicativo.

Percepção de aumento da renda cresce

Outro resultado mostra uma melhora na percepção dos moradores de Manaus sobre a própria renda. Em 2026, 18% dos entrevistados disseram que a renda pessoal aumentou nos 12 meses anteriores. No ano passado, esse percentual era de 12%.

Ao mesmo tempo, caiu de 38% para 30% a parcela de pessoas que perceberam redução da renda. Já o percentual dos que consideraram a renda estável passou de 48% para 47%.

Segundo o coordenador de relações institucionais do Instituto Cidades Sustentáveis, Igor Pantoja, os dois indicadores devem ser analisados em conjunto.

“Tem, por um lado, essa redução do percentual de pessoas que dizem que precisaram recorrer a atividades extras, a fazer bicos, no último ano, para complementar a renda.

Dentre as dez capitais, Manaus é a que mais teve um recuo, uma diminuição nesse percentual de pessoas que buscaram outras atividades”, aponta.

Para Pantoja, o aumento na percepção de renda também aparece relacionado à menor necessidade de buscar atividades extras.

“No mesmo sentido, eu diria, coincidentemente, tem uma percepção maior do aumento da renda do ano passado para esse ano. Então, dentre as dez capitais, percentualmente, Manaus é a que mais mudou a percepção entre 2025 e 2026”, declara.

“Ano passado, 12% das pessoas acreditavam ter tido aumento da renda no último ano e, neste ano, 18% afirmaram isso. Então, isso provavelmente está relacionado com essa menor quantidade de pessoas que precisam buscar atividades extras e fazer bicos para complementar a renda”, explica.

Alimentação continua pesando no orçamento

Apesar da melhora na percepção sobre a renda, a alimentação continua entre os principais fatores de pressão sobre o orçamento das famílias. Para 86% dos entrevistados em Manaus, os gastos com comida estão entre as despesas que mais impactam o orçamento doméstico. Em 2025, o percentual era de 83%.

Os dados sobre consumo mostram, porém, movimentos diferentes entre os alimentos.

Entre os entrevistados, 33% disseram ter aumentado o consumo de carnes, enquanto 38% afirmaram ter reduzido. No caso de frutas, legumes e verduras, 32% relataram aumento e 34%, redução.

O consumo de ovos apresentou uma diferença maior: 42% disseram ter aumentado o consumo, enquanto 18% reduziram. Já entre os laticínios, os percentuais ficaram próximos, com 28% de aumento e 29% de redução.

Segundo Igor Pantoja, Manaus apresentou uma mudança de percepção também nesse indicador.

“Quando a gente olha essa questão das mudanças no consumo de alimentos, é interessante ver, porque Manaus, como a gente já tinha falado, tem um aumento da percepção de que a renda aumentou no último ano, tem uma redução das pessoas que afirmam ter a necessidade de fazer bicos, e mesmo olhando aqui para o consumo de alimentos, dentre as 10 capitais, a gente vê que Manaus é onde mais aumentou o consumo de vários alimentos que em outras cidades tem diminuído”, analisa.

Igor destaca que houve aumento no consumo de frutas, verduras, legumes, carnes bovina, suína e de frango, além de arroz, feijão e ovos.

“Então, tem um aumento em geral do consumo desses alimentos em Manaus, enquanto em outras cidades aparece mais a diminuição por conta desse peso no orçamento. Então, é interessante ver que Manaus tem, de alguma maneira, uma perspectiva positiva no último ano, economicamente”, pontua.

Percepção sobre fome e pobreza permanece alta

Mesmo com a melhora em alguns indicadores econômicos, a pesquisa mostra que a percepção sobre fome e pobreza continua elevada em Manaus.

Para 63% dos entrevistados, aumentou o número de pessoas em situação de fome e pobreza na cidade. O percentual reúne as respostas “aumentou muito” e “aumentou um pouco”.

Apenas 8% perceberam uma redução. Entre as dez capitais pesquisadas, 59% apontaram aumento da fome e da pobreza e 12% perceberam diminuição.

Para o diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen, Vitor Hugo Néia, a percepção sobre a renda individual não representa necessariamente uma redução da vulnerabilidade social.

“Em Manaus, observamos melhora na percepção econômica individual: 18% dos entrevistados disseram que sua renda aumentou em relação ao ano anterior; em 2025, essa melhoria tinha sido notada por apenas 12% dos entrevistados”, aponta.

“Foi a capital brasileira com maior avanço percentual entre uma pesquisa e outra. Também foi a cidade pesquisada em que mais diminuiu a proporção de pessoas que precisaram recorrer a atividades extras para complementar a renda. Mas isso não significa que as famílias tenham recuperado plenamente seu poder de compra ou que a vulnerabilidade social tenha diminuído de forma visível”, destaca Vitor Hugo.

Segundo ele, a diferença entre os indicadores mostra que a percepção de melhora na renda pessoal convive com dificuldades sociais. Enquanto 63% dos entrevistados ainda percebem aumento da fome e da pobreza, a alimentação permanece como um dos principais fatores de pressão sobre o orçamento das famílias.

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