Ondas de calor, acidificação e baixa clorofila se tornaram recorrentes e já comprometem biodiversidade e segurança alimentar em países da América do Sul e África
A combinação de três fenômenos extremos — ondas de calor marinhas, alta acidificação e baixa concentração de clorofila — tem colocado em risco os ecossistemas das regiões sul e equatorial do Oceano Atlântico. Segundo estudo publicado na revista Nature Communications, antes de 2016, essas ocorrências simultâneas eram raras. Desde então, tornaram-se anuais.
Os impactos são diretos sobre a biodiversidade, a sustentabilidade da pesca e a segurança alimentar de países da América do Sul e da África. As regiões afetadas incluem pontos de alta produtividade biológica e importância econômica, como o Atlântico Equatorial Ocidental, a Confluência Brasil-Malvinas, o Golfo da Guiné e o Vazamento das Agulhas, onde a pesca anual chega a oito milhões de toneladas.
O estudo, realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), analisou dados de satélites entre 1999 e 2018. A temperatura dos oceanos é monitorada desde 1982, a clorofila desde 1998 e a acidez até 2018.
De acordo com a pesquisa, os três fenômenos estão relacionados à emergência climática. O oceano absorve cerca de 90% do calor atmosférico e 30% do dióxido de carbono (CO₂) emitido pela atividade humana. O excesso de calor provoca o superaquecimento das águas; o acúmulo de CO₂, a acidificação. Ambos fatores afetam o equilíbrio marinho.
Além disso, o aumento da temperatura reduz os nutrientes disponíveis para as algas microscópicas — base da cadeia alimentar no oceano —, o que leva à queda nos níveis de clorofila. Com menos alimento, os ecossistemas se tornam mais vulneráveis e têm menos chances de recuperação entre eventos extremos.
Para a pesquisadora Regina Rodrigues, da UFSC e do Inpo, o cenário exige atenção urgente. “Os ecossistemas marinhos estão sob pressão de vários tipos de poluição — dejetos químicos, esgoto, pesticidas, pesca ilegal. Precisamos ampliar áreas de conservação e regulamentar essas pressões. O aquecimento e a acidez do mar não podemos reverter de imediato, mas políticas públicas bem direcionadas podem ajudar a mitigar os danos”, afirma.
O estudo reforça a importância de ações coordenadas e baseadas em evidência científica para preservar os oceanos, reguladores essenciais do clima global e fundamentais à vida marinha e humana.



