Política e Economia

Foto: Divulgação
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Moradores relatam água barrenta e escura e associam descarte de resíduos à redução de peixes; pesquisadores da Ufam testam filtro de carvão como alternativa para tornar a água própria para consumo

O descarte de lixo em rios e igarapés tem preocupado moradores do Setor Itapuru, comunidade localizada dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagaçu-Purus, na área rural de Beruri, a 255 quilômetros de Manaus. Na região, onde o acesso à água encanada é limitado, o rio Purus é a principal fonte utilizada pela população. Com a variação do nível do rio e o acúmulo de resíduos, moradores relatam mudanças na qualidade da água e redução na presença de algumas espécies de peixes.

Segundo o pescador e líder comunitário Rafael Gomes Soares, a água retirada diretamente do rio apresenta diferentes características ao longo do ano. “Tem período em que ela está mais barrenta, tem período em que ela está mais escura. De boa qualidade ela não é, sendo que é água do rio”, relatou.

A preocupação também envolve a pesca, uma das principais atividades de subsistência das comunidades da região. Rafael afirma que espécies que antes eram encontradas com frequência passaram a aparecer em menor quantidade. Entre elas está o aracu, peixe que, segundo ele, costumava ser encontrado em grande proporção.

“Eu imagino que seja devido a esse descarte de lixo na água, nos igarapés em torno da comunidade e atrás da comunidade”, afirmou.

O cenário foi acompanhado por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) durante uma expedição realizada entre os dias 19 e 28 de agosto. O grupo percorreu comunidades ao longo do rio Purus durante 11 dias como parte das atividades do Programa Ecológico de Longa Duração: Diversidade da Várzea (PELD-DIVA), com participação de projetos parceiros, como o Laboratório de Análises de Água e Qualidade Ambiental (LAQUA) e o Amazônia+10.

Tecnologia busca melhorar qualidade da água

Além da coleta de informações sobre o ambiente e as comunidades, a expedição promoveu oficinas para ensinar moradores a produzir filtros de carvão ativado utilizando materiais acessíveis e que fazem parte do cotidiano amazônico.

A tecnologia, chamada de Sistema de Tratamento de Água de Carvão Ativado (STAC), utiliza carvão e materiais reciclados, como garrafões de água e baldes de manteiga, para auxiliar no tratamento da água.

De acordo com a professora Tereza Cristina Oliveira, coordenadora do LAQUA, a proposta é desenvolver uma tecnologia social que possa ser adaptada à realidade das comunidades do interior do Amazonas.

“Aquela água de um rio lindo está com boa qualidade, mas não é adequada, não é potável, não pode ser consumida diretamente”, explicou.

Segundo a pesquisadora, o objetivo é contribuir para que as comunidades tenham maior autonomia no tratamento da água. “É bem complexo solucionar essa questão do consumo de água com boa qualidade no interior, mas queríamos colaborar para que essas pessoas possam ser autossuficientes de forma sustentável”, afirmou.

O LAQUA atua na análise de diferentes matrizes de água, com estudos voltados principalmente à qualidade dos recursos hídricos e à presença de poluentes no ambiente aquático. Durante a expedição, a equipe do laboratório ficou responsável pelas oficinas relacionadas ao uso do carvão ativado.

Falta de água potável

A dificuldade de acesso à água própria para consumo também chama atenção em meio ao período de estiagem enfrentado pelo Amazonas. Apesar de o rio continuar sendo utilizado pelas comunidades, a água retirada diretamente do curso d’água não deve ser considerada automaticamente própria para consumo.

A Defesa Civil do Amazonas informou que, em situações como essa, o atendimento à população é inicialmente de responsabilidade das defesas civis municipais. O órgão estadual atua de forma complementar quando os recursos do município são insuficientes.

Até o momento, São Paulo de Olivença e Benjamin Constant são os municípios que tiveram situação de emergência reconhecida pela Defesa Civil do Amazonas em razão da estiagem. Humaitá também decretou emergência, mas o reconhecimento estadual ainda não havia ocorrido.

A expedição reuniu pesquisadores da Ufam e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), além de estudantes e técnicos. A iniciativa busca aliar a pesquisa científica às necessidades apresentadas pelas comunidades ribeirinhas, especialmente em áreas onde o acesso a serviços básicos, como o abastecimento de água potável, ainda é um desafio.

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