Ciência e Tecnologia

Foto: Alexandre Pereira
Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Estiagem, ventos e localização dos incêndios explicam a intensidade da poluição; Amazonas registrou 25,4 mil focos em 2024 e soma 7.865 em 2026 até outubro

Manaus enfrenta episódios de fumaça intensa provocada por queimadas há pelo menos uma década. Desde 2015, a capital amazonense registra períodos de céu encoberto, redução da visibilidade e piora na qualidade do ar. Segundo a meteorologista Andrea Ramos, a intensidade da poluição não depende apenas da quantidade de incêndios, mas também da falta de chuva, da localização dos focos e das condições atmosféricas que interferem na dispersão dos poluentes.

Em 2015, Manaus e municípios da Região Metropolitana enfrentaram dias consecutivos de fumaça e cheiro de queimado. Naquele ano, o Amazonas registrou 13.419 focos de queimadas, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Nos anos seguintes, os registros oscilaram e atingiram números elevados em algumas temporadas. Em 2020, foram 16.729 focos. Em 2022, o estado contabilizou 21.217 e, em 2023, outros 19.601.

Em 2023, a seca extrema também afetou os rios, a navegação e o abastecimento de comunidades do interior. Na capital, a fumaça comprometeu a qualidade do ar, enquanto o Rio Negro atingiu o menor nível em mais de 120 anos de medições. O recorde foi superado durante a estiagem de 2024.

Naquele ano, o Amazonas registrou 25.499 focos de queimadas, o maior número entre os anos apresentados na série. Em 2025, o total caiu para 4.545, período marcado por chuvas acima da média. Em 2026, até outubro, foram contabilizados 7.865 focos. Segundo a meteorologista, as chuvas estão bem abaixo da média desde junho.

Número de queimadas não determina sozinho a fumaça

A quantidade de focos registrados no estado não permite, isoladamente, estimar a concentração de poluentes em Manaus. A distância dos incêndios, a direção dos ventos e a estabilidade da atmosfera influenciam o volume de fumaça que chega à capital e o tempo que permanece no ar.

Andrea Ramos explica que partículas produzidas por incêndios no interior do Amazonas e em estados vizinhos podem ser transportadas por longas distâncias. Por isso, a poluição pode atingir níveis elevados na capital mesmo quando os focos estão longe da área urbana.

“Partículas finas podem permanecer suspensas por horas ou dias. A Defesa Civil já analisou fumaça chegando a Manaus a partir do sul do Amazonas, Rondônia e norte de Mato Grosso, enquanto em outros episódios a origem predominante esteve na Região Metropolitana ou no leste amazonense”, declarou.

A localização dos incêndios em relação à direção dos ventos é determinante. Quando as correntes de ar transportam a fumaça para Manaus, os efeitos podem ser sentidos na cidade, independentemente do número total de ocorrências registradas no estado.

Falta de chuva favorece a propagação do fogo

A estiagem prolongada contribui para o agravamento do problema. Após semanas ou meses com pouca chuva, a vegetação e o solo perdem umidade, o que facilita a propagação das chamas. A ausência de precipitação também reduz a remoção de partículas suspensas na atmosfera.

“Quando há semanas ou meses com pouca chuva, a vegetação e o solo perdem umidade. O fogo se propaga com maior facilidade e a fumaça permanece mais tempo na atmosfera”, afirmou a meteorologista.

Os ventos também influenciam a concentração dos poluentes. Quando estão fracos e a atmosfera permanece estável, a fumaça tende a se acumular próxima à superfície. Nessas condições, a qualidade do ar pode piorar mesmo que o número de focos seja inferior ao de anos anteriores.

El Niño pode agravar a estiagem

O El Niño é outro fator que pode favorecer condições de seca e calor na Amazônia. O fenômeno altera a circulação atmosférica e pode reduzir as chuvas em determinadas áreas, aumentando a vulnerabilidade da vegetação ao fogo.

Andrea Ramos ressalta, porém, que as condições climáticas favoráveis não são, por si só, a causa direta dos incêndios. É necessário que exista uma fonte de ignição, como a ação humana.

“Para evitar simplificação, vale dizer: o El Niño aumenta a predisposição à seca e ao calor; o incêndio depende da existência de uma fonte de ignição e do uso do fogo”, explicou.

Em 2023, o aquecimento anormal do Atlântico Tropical Norte também contribuiu para condições climáticas extremas na região. A combinação de temperaturas elevadas e estiagem agravou os impactos sobre os rios e a qualidade do ar.

Bombeiros combateram mais de 19 mil focos em 2026

Entre 1º de junho e 7 de outubro de 2026, o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas informou ter combatido 19.224 focos de incêndios urbanos e florestais. Desse total, 3.996 ocorreram em Manaus e 15.228 no interior.

As ações envolveram 3.346 ocorrências e mobilizaram cerca de mil servidores, entre bombeiros militares e brigadistas.

Em maio, a corporação iniciou a operação Amazonas+Verde, que reúne ações de combate a incêndios florestais, enfrentamento de crimes ambientais, educação ambiental e ampliação da capacidade operacional.

Segundo os bombeiros, entre maio de 2025 e maio de 2026, o número de municípios com bases permanentes da corporação aumentou de 11 para 25. O efetivo também cresceu, passando de 692 militares em 2019 para 1.651 em 2026, após a realização de concurso público.

A estrutura recebeu ainda 20 novas viaturas, incluindo 17 picapes equipadas com kits de combate a incêndio, além de 453 equipamentos multimissão.

Veja o histórico de focos de queimadas no Amazonas

Dados do Inpe mostram a variação anual dos registros no estado:

AnoFocos de queimadas
201513.419
201611.173
201711.685
201811.446
201912.676
202016.729
202114.848
202221.217
202319.601
202425.499
20254.545
2026, até outubro7.865

Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A série histórica evidencia que a quantidade de focos varia significativamente de um ano para outro. A intensidade da fumaça que chega a Manaus, entretanto, depende também das condições meteorológicas, da distribuição dos incêndios e da duração da estiagem.

Você também pode gostar

Clima e Tempo

temperature icon 36°C

Últimas Notícias

Editorias