Urbanização, falta de saneamento e ocupação desordenada transformaram cursos d’água em áreas de risco; especialistas defendem mudança estrutural para evitar colapso urbano
Cortada por cerca de mil igarapés, a cidade de Manaus construiu sua história sobre a água — e também contra ela. Hoje, esses cursos naturais, que antes estruturavam o território, se tornaram sinônimo de poluição, alagamentos e risco social.
Segundo dados da Associação Comercial do Amazonas, os igarapés alimentam grandes bacias urbanas como as do Mindu e do Quarenta, ambas em estágio avançado de contaminação.
Uma ruptura histórica com os rios
O distanciamento entre a cidade e seus igarapés começou ainda no século XIX, durante o governo de Eduardo Ribeiro. Inspirada em reformas urbanas europeias, Manaus passou a aterrar cursos d’água em nome da modernização.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o desaparecimento do igarapé do Espírito Santo, soterrado sob a atual Avenida Eduardo Ribeiro, nas proximidades do Teatro Amazonas.
A justificativa, à época, era sanitária: os igarapés eram vistos como focos de doenças.
Crescimento desordenado agravou o problema
No século XX, a expansão urbana — impulsionada pela Zona Franca a partir de 1967 — acelerou esse processo. Manaus saltou de cerca de 250 mil para mais de 2 milhões de habitantes, sem planejamento adequado.
Áreas de várzea foram ocupadas, rios canalizados e populações de baixa renda empurradas para os fundos de vale — exatamente onde os igarapés correm.
Hoje, viver próximo a esses cursos d’água significa conviver com enchentes, mau cheiro e risco constante.
Poluição e esgoto: o problema invisível
De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), todos os igarapés da área urbana estão contaminados.
A cidade possui cerca de apenas 40% de cobertura de tratamento de esgoto, e parte significativa dos resíduos é despejada sem tratamento, agravando a degradação.
Quando a chuva vira desastre
Especialistas apontam que a transformação dos igarapés seguiu um padrão:
- Desmatamento das margens
- Aterramento de áreas alagáveis
- Canalização e retificação dos rios
Esse processo reduziu a capacidade natural da cidade de absorver água, intensificando alagamentos.
A impermeabilização do solo faz com que a água da chuva escoe rapidamente para canais já sobrecarregados, elevando o risco de transbordamentos.
A alternativa: trabalhar com a natureza
A chamada “renaturalização” surge como alternativa. O conceito propõe recuperar características naturais dos rios urbanos, como:
- Margens com vegetação
- Leitos menos canalizados
- Áreas de inundação controlada
- Infraestruturas verdes (jardins de chuva, valas vegetadas, bacias de retenção)
Experiências em cidades como São Paulo mostram que o modelo pode reduzir alagamentos — mas exige planejamento integrado.
Sem políticas públicas, não há solução
Especialistas são categóricos: recuperar igarapés isoladamente não resolve o problema.
É necessário:
- Investir em habitação para retirar famílias de áreas de risco
- Ampliar saneamento básico
- Melhorar coleta de resíduos
- Integrar planejamento urbano e ambiental
Sem isso, os eventos extremos tendem a piorar.
Um futuro mais extremo já começou
Estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que a Amazônia já vive efeitos das mudanças climáticas:
- Secas mais longas
- Aumento de queimadas
- Maior degradação ambiental
O resultado é um paradoxo: a mesma cidade que alaga no inverno amazônico enfrenta escassez de água na estiagem.
“Não são desastres naturais”
Para pesquisadores, os alagamentos e crises urbanas não são apenas eventos naturais, mas consequência direta de decisões históricas.
Sem mudanças estruturais, a tendência é clara: mais enchentes, mais perdas e maior impacto sobre populações vulneráveis.
Manaus, que nasceu moldada pelas águas, agora precisa reaprender a conviver com elas — antes que os igarapés deixem de ser apenas um problema e se tornem um limite para a própria cidade.



