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Foto: Divulgação
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Tipo de água influencia ambientes, peixes e hábitos alimentares no Amazonas

O tipo de água dos rios amazônicos ajuda a explicar a diversidade de peixes que chega às mesas do Amazonas. A relação entre rios, biodiversidade e alimentação foi analisada pelo gastrônomo carioca Thiago Loeser, criador do projeto Odisseia Gourmet, que busca mostrar como as características ambientais influenciam a culinária de diferentes regiões do estado.

Em um vídeo que ganhou repercussão nas redes sociais, Loeser defende que o Amazonas não possui uma única culinária, mas diferentes formas de alimentação construídas a partir da relação das populações com os rios.

“No Amazonas, quem manda na cozinha não é só o rio, e sim o tipo de rio. Lá existem três tipos de água e cada uma monta uma mesa completamente diferente”, sintetiza.

Segundo o gastrônomo, fatores como composição da água, temperatura e origem dos rios ajudam a explicar por que determinadas espécies são mais presentes em algumas áreas.

Águas formam ambientes diferentes

A análise considera conceitos da limnologia, ciência que estuda as águas continentais. As características dos rios influenciam os ambientes onde vivem plantas e animais e ajudam a explicar a relação entre natureza, pesca e alimentação.

As águas barrentas, como as do Rio Solimões, nascem na Cordilheira dos Andes e chegam à Amazônia carregadas de sedimentos e minerais. Durante os períodos de cheia, esses sedimentos ajudam a fertilizar as áreas de várzea, ambientes importantes para a agricultura e para a reprodução e alimentação de diversas espécies.

O tambaqui é um dos peixes associados a esses ambientes e possui grande importância comercial e alimentar no estado.

Já as águas pretas, como as do Rio Negro, são mais ácidas e apresentam baixa quantidade de sedimentos minerais. Mesmo assim, o rio abriga uma das maiores diversidades de peixes do planeta.

Em Barcelos, no interior do Amazonas, essa biodiversidade também está relacionada à pesca sustentável do peixe-cardinal, espécie que ganhou importância no mercado internacional de aquarismo.

Os rios de água clara completam a diversidade hidrográfica da Amazônia e apresentam características próprias, que também influenciam os ambientes e as espécies encontradas.

Encontro das águas mostra diferenças

Um dos exemplos mais conhecidos dessa diversidade está em Manaus, no encontro dos rios Negro e Solimões.

O Rio Negro possui água mais quente, ácida e com menor velocidade de correnteza. Já o Solimões apresenta água mais fria, carregada de sedimentos e com maior velocidade.

As diferenças de temperatura, densidade, composição e velocidade fazem com que os dois rios permaneçam lado a lado por quilômetros antes de se misturarem completamente.

O fenômeno também ajuda a mostrar como características distintas das águas podem criar ambientes diferentes dentro da mesma bacia hidrográfica.

Gastronomia também conta história

Para Thiago Loeser, entender a culinária amazônica exige olhar além das receitas tradicionais e considerar o ambiente em que cada população vive.

“Quando vou decidir os temas de uma região, tento ir além da receita típica. Como gastrônomo, analiso o ambiente, pois o ecossistema afeta a biodiversidade e os costumes.”

O projeto Odisseia Gourmet é desenvolvido de forma independente e reúne pesquisas acadêmicas, imagens e relatos de moradores das regiões visitadas.

Loeser também destaca a importância do conhecimento transmitido entre gerações, principalmente entre populações ribeirinhas, indígenas e quilombolas.

“Muito da nossa cultura alimentar não tem documentação acadêmica. Ela sobrevive na oralidade de ribeirinhos, quilombolas e indígenas.”

Peixes não ficam presos a um rio

Apesar da relação entre as características dos rios e os ambientes aquáticos, o pesquisador e doutor em ecologia aquática Edinbergh Caldas de Oliveira faz uma ressalva: não é possível determinar a distribuição dos peixes apenas pelo tipo de água.

Segundo ele, muitas espécies percorrem diferentes ambientes ao longo da vida e utilizam rios, lagos e áreas de floresta inundada para se alimentar, crescer e se reproduzir.

“Do ponto de vista ecológico, é difícil fazer essa separação rígida por rios. Espécies de grande valor comercial e alimentar, como o tambaqui, o jaraqui e grandes bagres, são migratórias.”

Entre essas espécies estão a piraíba e o surubim. Elas podem percorrer centenas de quilômetros e circular entre diferentes ambientes da bacia amazônica.

Já peixes como pirarucu e tucunaré podem permanecer mais associados a determinados lagos e áreas de várzea.

Biodiversidade depende da conservação

A relação entre rios, peixes e alimentação também reforça a importância da conservação dos ambientes aquáticos.

Iniciativas como o manejo comunitário do pirarucu e a pesca sustentável do peixe-cardinal, em Barcelos, mostram como o uso responsável dos recursos naturais pode contribuir para preservar espécies e manter atividades econômicas e culturais.

Para Edinbergh, a preservação dos rios depende da união entre conhecimento tradicional, pesquisa científica e políticas públicas.

“O manejo comunitário é essencial para administrar os recursos da nossa bacia com ética e sustentabilidade.”

A diversidade dos rios amazônicos, portanto, não está apenas na paisagem. Ela também aparece na pesca, na alimentação e nos modos de vida das populações que dependem dessas águas.

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