Mapeamento inédito mostra templos afro-brasileiros em regiões sujeitas a alagamentos, erosão e deslizamentos
Em Manaus, terreiros e templos de religiões afro-brasileiras — espaços sagrados para comunidades negras e praticantes — estão localizados próximos a áreas classificadas como de risco geológico, inundação, alagamento e erosão. A constatação faz parte de uma análise inédita realizada a partir do mapeamento do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), associada a dados do Atlas ODS Amazônia e do Instituto Ganga Zumba.
O levantamento, divulgado no contexto da Semana da Consciência Negra, revela que a vulnerabilidade desses espaços ultrapassa a dimensão física: afeta também a preservação cultural, a segurança espiritual e o pertencimento de comunidades que encontram nos terreiros mais do que um local de culto — mas um território de resistência.
“Quando o risco avança sobre o terreiro, desaba também a segurança espiritual”
A sacerdotisa Agonjaí Nochê Flor de Navê, do Templo de Tambores de Mina Jejê-Nagô Xwê Ná Sin Fifá, na zona norte, descreve o impacto da insegurança territorial na vivência religiosa:
“Quando um terreiro é erguido em área de risco, todo esse universo fica ameaçado”, afirma.
“O território é vivo e responde ao cuidado que damos a ele e ao descaso do poder público.”
O estudo da CPRM aponta centenas de setores de Manaus classificados como alto (R3) e muito alto risco (R4) para desastres como inundações, alagamentos, erosão, deslizamentos e enxurradas. Com a sobreposição dos mapas, foi possível identificar terreiros dentro ou muito próximos dessas áreas.
Segundo a pesquisadora Aixa Lopes, especialista em desastres urbanos, a combinação entre fenômenos extremos e desigualdade urbana agrava os impactos:
“Esses eventos ficam mais frequentes e graves quando aumentam as áreas precárias e as mudanças climáticas intensificam os extremos”, explica.
438 setores de risco e mais de 112 mil pessoas impactadas
O mapeamento de 2025 indica que Manaus tem:
- 362 setores de alto risco (R3)
- 76 setores de muito alto risco (R4)
Total: 438 setores, impactando aproximadamente 112 mil moradores.
Segundo Aixa Lopes, a visualização desses dados permite identificar o tipo de desastre registrado próximo a cada templo, além de facilitar o acesso da população às informações usadas na construção de políticas públicas.
Zonas Leste e Norte concentram mais pontos vulneráveis
As zonas Leste e Norte, que reúnem os maiores contingentes populacionais em áreas precárias, também concentram o maior número de terreiros próximos a zonas de risco. Zonas Sul e parte da Oeste, historicamente sujeitas a enchentes, também aparecem no levantamento.
Para as comunidades de matriz africana, o risco territorial tem peso ampliado: os terreiros funcionam como centros culturais, educacionais e espaços de fortalecimento identitário. A interrupção das atividades ou danos estruturais atingem diretamente o cotidiano religioso e comunitário.
Um alerta para políticas públicas no mês da Consciência Negra
O pesquisador Danilo Egle, do Atlas ODS Amazônia, destaca a urgência trazida pelo mapeamento:
“O mapa mostra claramente os territórios sagrados dentro ou muito próximos de áreas de risco. Com eventos climáticos cada vez mais intensos, é preciso agir.”
Para ele, a proteção às expressões religiosas afro-brasileiras deve incluir não apenas políticas culturais, mas ações de prevenção de riscos, segurança territorial e planejamento urbano.
No mês dedicado à Consciência Negra, o levantamento reforça um ponto-chave: preservar os terreiros é também preservar a memória, a espiritualidade e a história negra em Manaus.



