Fieam teme perda de competitividade com redução de tarifas sobre manufaturados europeus; Cieam vê chance de ampliar exportações brasileiras de produtos primários e fortalecer mercado interno
O acordo Mercosul–União Europeia, aprovado na sexta-feira (9), reacendeu discussões sobre os impactos na Zona Franca de Manaus (ZFM) e no Polo Industrial de Manaus (PIM). Enquanto a Federação das Indústrias do Amazonas (Fieam) alerta para riscos à competitividade do modelo, o Centro das Indústrias do Amazonas (Cieam) avalia que o tratado pode impulsionar exportações brasileiras e fortalecer a economia nacional.
Segundo o presidente da Fieam, Antônio Silva, a eliminação de tarifas sobre manufaturados europeus pode reduzir a atratividade da ZFM, que se sustenta pelo diferencial tributário. “A integridade do modelo depende da negociação de prazos estendidos para a desgravação tarifária e da manutenção de produtos sensíveis em listas de exceções”, afirmou, destacando que setores como eletroeletrônicos e duas rodas podem perder espaço diante da concorrência europeia.
Dados da Suframa mostram que, entre janeiro e outubro de 2025, os segmentos de bens de informática (20,82%) e duas rodas (19,95%) lideraram o faturamento do PIM, evidenciando sua relevância estratégica em um cenário de maior competição internacional.
Já para André Ricardo Costa, coordenador da Área de Indicadores do Cieam, os efeitos do acordo sobre o PIM tendem a ser indiretos e positivos. “O Brasil vai aumentar muito a exportação de produtos primários, minerais, energéticos e agrícolas. Essa renda vai fortalecer o mercado interno e, por consequência, a demanda pelos produtos do PIM, cuja pauta não concorre com as exportações europeias”, avaliou.
O tratado, anunciado no fim de 2024 após 25 anos de negociações, prevê a supressão da maioria das tarifas entre os blocos. O mercado sul-americano reúne 270 milhões de consumidores, enquanto o europeu soma 450 milhões. A expectativa é de que o acordo favoreça exportações europeias de automóveis, máquinas e alimentos industrializados, ao mesmo tempo em que abre espaço para carne, açúcar, arroz, mel e soja sul-americanos.
Atualmente, as exportações do PIM para a União Europeia concentram-se em nichos como concentrados de bebidas e componentes de motocicletas, com Alemanha, Holanda e França entre os principais destinos.
Para Antônio Silva, os maiores ganhos potenciais estão em produtos ligados à bioeconomia, fármacos e concentrados, alinhados às exigências ambientais europeias. Ele também vê oportunidade na importação de bens de capital e tecnologia europeia para modernizar o parque fabril, desde que haja segurança jurídica nos incentivos fiscais da ZFM.
Na avaliação da Fieam, o acordo pode abrir novas oportunidades, mas exige negociações cuidadosas para evitar perdas estruturais e garantir que a Zona Franca de Manaus continue competitiva no novo cenário do comércio internacional.



