Em 2025, região alcançou R$ 321 milhões em projetos autorizados pela Lei de Incentivo ao Esporte; apesar do avanço, Amazônia reteve apenas 3,57% dos recursos efetivamente captados desde 2007
A Amazônia Legal registrou, em 2025, o maior volume da história de projetos autorizados à captação pela Lei Federal de Incentivo ao Esporte. Foram R$ 321,08 milhões em iniciativas aprovadas, alta de 62,4% em relação ao ano anterior.
O crescimento, no entanto, contrasta com uma dificuldade histórica da região: transformar projetos aprovados em recursos efetivamente captados. Desde 2007, quando a política de incentivo ao esporte começou, apenas 3,57% de todo o dinheiro captado no país ficou na Amazônia, enquanto 63,8% foram destinados à Região Sudeste.
O cenário chama atenção porque a Amazônia Legal representa cerca de 14% da população brasileira e mais da metade do território nacional. Na prática, organizações esportivas da região conseguem aprovar projetos, mas ainda encontram obstáculos para chegar à etapa seguinte: encontrar empresas e investidores dispostos a financiar as iniciativas.
A diferença entre os valores autorizados e os efetivamente captados é um dos principais desafios para o setor. A aprovação pela Lei de Incentivo ao Esporte permite que a organização busque patrocinadores, mas não garante que o projeto receberá os recursos necessários para ser executado.
Quando o financiamento não é concretizado, os impactos ultrapassam o campo esportivo. Em comunidades onde são limitadas as oportunidades de acesso a atividades educacionais, culturais e de convivência, projetos esportivos podem funcionar como espaços de proteção social, promoção da saúde, desenvolvimento de habilidades e fortalecimento da cidadania.
Formação tenta reduzir desigualdade no acesso aos recursos
Uma das iniciativas que atuam para ampliar a capacidade das organizações amazônicas de acessar esses mecanismos é a Rede CT – Capacitação e Transformação, criada em 2024 pela Rede Igapó e pelo Instituto Futebol de Rua.
O projeto oferece capacitações, mentorias e acompanhamento técnico para organizações sociais interessadas em estruturar projetos esportivos e buscar recursos por meio da Lei de Incentivo ao Esporte.
Desde a criação, 316 organizações da sociedade civil participaram das formações realizadas nos nove estados da Amazônia Legal. As instituições estão distribuídas em 75 municípios.
Entre os estados atendidos, o Pará reúne o maior número de organizações acompanhadas, com 61, seguido por Mato Grosso, com 54, e Amazonas, com 53. Também participaram instituições do Maranhão, Amapá, Acre, Rondônia, Roraima e Tocantins.
Segundo os dados da iniciativa, 106 projetos aprovados na Amazônia Legal passaram pelos processos de formação da Rede CT. Juntos, eles representam mais de R$ 90 milhões em recursos autorizados para captação.
O montante corresponde a 22% dos projetos aprovados na região e a 15,2% de todo o valor autorizado à captação na Amazônia Legal.
Para Fernando Salum, diretor da Rede Igapó, a capacitação é uma forma de aproximar organizações que historicamente tiveram menos acesso aos mecanismos de financiamento.
“Quando falamos em democratizar o acesso à Lei de Incentivo ao Esporte, estamos falando também de corrigir desigualdades históricas. A Amazônia Legal tem organizações com enorme potência de transformação social, mas que muitas vezes não acessavam esses mecanismos por falta de apoio técnico, redes de conexão e oportunidades.”
Mais de R$ 21 milhões já foram captados
Além dos projetos aprovados, a Rede CT informa que as organizações participantes de seus programas já conseguiram captar mais de R$ 21 milhões para colocar iniciativas em prática.
O valor representa 17,8% de todo o recurso efetivamente captado na região durante o período considerado pelo levantamento.
Para a gerente de projetos da Rede CT, Gigi Favacho, os números mostram que existe uma demanda por financiamento na região e que as organizações precisam estar preparadas para disputar esses recursos.
“Batemos o recorde de projetos amazônicos aprovados. O poder público, as marcas e toda a cadeia de patrocínios não poderá ignorar esses dados e essa pressão que a própria região faz sobre o mercado para se atentar a essa demanda represada.”
Segundo ela, a estratégia é fortalecer as instituições para que elas não apenas consigam elaborar projetos, mas também tenham condições de buscar patrocinadores e executar as propostas.
“São organizações sérias, atuantes e a partir de agora capacitadas, assessoradas e conectadas em rede. Nosso trabalho é caminhar junto com essas instituições, as instrumentalizando para que acessem recursos, ampliem impacto e fortaleçam o esporte como instrumento de educação, inclusão e desenvolvimento social na Amazônia”, afirma.
Amazonas está entre os estados com mais organizações atendidas
O Amazonas aparece em terceiro lugar entre os estados da Amazônia Legal em número de organizações acompanhadas pela Rede CT, com 53 instituições.
A distribuição mostra que a busca por recursos para projetos esportivos não está concentrada em apenas um estado. O levantamento aponta 61 organizações atendidas no Pará, 54 em Mato Grosso, 53 no Amazonas, 35 no Maranhão, 28 no Amapá, 25 no Acre, 22 em Rondônia, 20 em Roraima e 18 no Tocantins.
A atuação regional procura fortalecer instituições que trabalham diretamente com crianças, adolescentes, atletas e comunidades em diferentes territórios.
Recorde de aprovação ainda não significa dinheiro disponível
Apesar do avanço registrado em 2025, os dados históricos mostram que a Amazônia ainda está distante de uma distribuição proporcional dos recursos de incentivo ao esporte.
Desde 2007, de cada R$ 100 efetivamente captados pela Lei de Incentivo ao Esporte no país, R$ 63,80 ficaram no Sudeste. A Amazônia Legal, por outro lado, ficou com R$ 3,57.
A diferença revela um dos principais gargalos da política de incentivo: aprovar projetos é apenas uma etapa do processo. Depois da autorização, as organizações precisam convencer empresas a direcionar parte dos recursos que podem ser destinados por meio do mecanismo de incentivo.
Para instituições de pequeno porte, essa etapa pode envolver dificuldades como falta de equipe especializada, pouca experiência na elaboração de propostas comerciais, dificuldade de acesso a grandes empresas e ausência de redes de relacionamento com potenciais patrocinadores.
A Rede CT aposta justamente na qualificação e na criação dessas conexões para ampliar a participação da Amazônia no mercado de patrocínios esportivos.
Criada a partir da experiência do Instituto Futebol de Rua, que atua desde 2006 com esporte e educação, e da Rede Igapó, especializada em projetos incentivados e captação de recursos, a iniciativa conta com Itaú como patrocinador master, além de B3 e Instituto Aegea.
O objetivo é fazer com que o recorde de projetos aprovados seja acompanhado por um aumento também nos recursos que chegam efetivamente às organizações e às comunidades atendidas.



