Presença da Fusobacterium nucleatum nos tumores está associada a melhor prognóstico e maior sobrevida, segundo pesquisa do Hospital de Amor
Por muito tempo, os cuidados com a saúde bucal foram voltados principalmente para prevenir cáries e doenças gengivais. Mas estudos recentes mostram que o microbioma oral — conjunto de microrganismos que vivem na boca — pode ter um papel muito maior na saúde geral, inclusive no desenvolvimento e na evolução de alguns tipos de câncer.
Pesquisadores do Hospital de Amor, em São Paulo, identificaram que a bactéria Fusobacterium nucleatum, normalmente presente na boca, está associada a um melhor prognóstico em casos de câncer de cabeça e pescoço. O estudo analisou amostras de 94 pacientes e constatou que, nos tumores onde a bactéria foi encontrada, os pacientes tiveram uma sobrevida média de 60 meses, contra 36 meses dos que não tinham o microrganismo.
O achado surpreendeu, já que, em outros tipos de câncer, como o colorretal, a presença dessa bactéria costuma indicar piora no quadro. No caso dos tumores de cabeça e pescoço, a hipótese dos cientistas é que ela pode estimular o sistema imunológico, tornando o câncer menos agressivo.
A pesquisa utilizou uma técnica ultrassensível, chamada PCR digital, que permite detectar até pequenas quantidades de DNA bacteriano dentro do tecido tumoral. Segundo o pesquisador Rui Manuel Reis, que lidera o estudo, esse é um passo importante na busca por novos biomarcadores que ajudem a prever a evolução da doença e até a orientar tratamentos mais personalizados no futuro.
O câncer de cabeça e pescoço inclui tumores na boca, garganta, laringe, nariz e tireoide. No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), 80% dos casos são diagnosticados em estágio avançado. Os principais fatores de risco são tabagismo, consumo de álcool, infecção por HPV, má higiene bucal e desnutrição.
Para os pesquisadores, entender como o microbioma influencia o desenvolvimento dos tumores pode abrir caminho para tratamentos mais eficientes, e até para o uso de antibióticos como complemento à quimioterapia e à radioterapia no futuro.



