Iniciativa do Idesam recebeu quase 500 inscrições de mais de 80 países e prevê recursos para validar soluções que aproveitam a biodiversidade da Amazônia
Dez propostas tecnológicas voltadas ao aproveitamento da biodiversidade amazônica foram selecionadas pelo Desafio Bioinovação Amazônia, iniciativa realizada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), por meio da ZÔMA. A chamada internacional recebeu quase 500 inscrições, com participação de interessados de mais de 80 países, e busca transformar pesquisas científicas em soluções com potencial de aplicação industrial.
As propostas abrangem o aproveitamento de resíduos de açaí e buriti, o aumento da extração de óleos vegetais, a rastreabilidade de espécies oleaginosas e o desenvolvimento de biomateriais para aplicações na saúde. O programa conta com financiamento do Bezos Earth Fund e parceria da Penn State University.
A iniciativa conecta pesquisadores, empreendedores, indústrias e comunidades amazônicas para desenvolver tecnologias que agreguem valor às cadeias da sociobiodiversidade. O modelo de inovação aberta parte de demandas dos territórios e de empresas para orientar a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos.
“A chamada foi construída em uma lógica de redes de colaboração, através da qual os atores conectam capacidades, compartilham riscos e geram aprendizagens para desenvolver soluções mais ambiciosas. Nesse arranjo, as indústrias indicam suas demandas tecnológicas, as comunidades apontam oportunidades nas matérias-primas com que trabalham, e o IDESAM mobiliza pesquisadores e especialistas em P&D para construir soluções conjuntas”, afirma o gerente de inovação do Idesam, Paulo Simonetti.
Tecnologias aproveitam resíduos e óleos amazônicos
As dez propostas selecionadas apresentam aplicações em setores como cosméticos, saúde, ingredientes funcionais e novos materiais.
Na área de aproveitamento de resíduos, a BioExtrativa, de Ramon Sousa Barros Ferreira e Carolina Itoda, propõe transformar caroços de açaí em extratos bioativos por meio de uma tecnologia de extração com menor impacto ambiental. Weliton Pedro Batiston e Silvia Luciane Basso desenvolveram uma proposta para obter ingredientes cosméticos ricos em carotenoides a partir de resíduos do buriti, com possibilidade de participação de cooperativas no pré-beneficiamento.
Outras duas equipes trabalham com amidos funcionais. Leonardo Sia e Menfecy Almeida Amaral desenvolvem um modificador sensorial para cosméticos a partir da farinha de babaçu. Já Nathiel Moraes e Paula Moreira criaram a BioGel, plataforma à base de amido voltada à conservação do açaí e à extração de compostos bioativos.
No segmento de óleos amazônicos, Danilo José Machado de Abreu e Cassiana Mendes propõem um coquetel multienzimático para aumentar a recuperação do óleo de buriti e preservar seus compostos bioativos. Segundo os resultados apresentados pela dupla, o rendimento mais que dobrou nos ensaios realizados.
A Oiru Bio, de Isabella Barbosa e Marina Aoe Shimono, combina software de rastreabilidade e sensores não invasivos para identificar espécies oleaginosas e estimar seu potencial produtivo, incluindo árvores de copaíba.
Propostas também miram o setor da saúde
Quatro das tecnologias selecionadas exploram aplicações relacionadas ao cuidado com a pele e à utilização de compostos bioativos amazônicos.
A ACUS, desenvolvida por Letícia Scherer Koester e Taris Macedo, propõe microagulhas poliméricas dissolvíveis para liberar compostos bioativos na pele. Samanta Finsterbuch e Cassiana Mendes apresentam um nanorrepelente formulado com substâncias extraídas da andiroba e da copaíba.
A BioSpin NanoLift, de Andrey Marcos Pinho da Silva e Taris Macedo, desenvolve uma nanofibra biodegradável para liberação gradual de bioativos em aplicações relacionadas ao tratamento de feridas. Já a Cahuchu Elixir, de Ana Karoline Almeida da Silva e Rashmi Prakash, utiliza biopolímeros reaproveitados e nanobioativos amazônicos em uma plataforma voltada ao cuidado avançado da pele.
As propostas estão em diferentes estágios de maturidade e ainda precisam passar por etapas de validação e desenvolvimento para que suas aplicações comerciais sejam avaliadas.
Comunidades participam da construção dos desafios
A seleção ocorreu após um processo dividido em etapas. Na primeira fase, os participantes se inscreveram para atuar em seis desafios tecnológicos relacionados a bioativos de óleos amazônicos, óleos funcionais, novos produtos derivados da borracha, melhoria da cadeia da castanha-do-brasil, amidos funcionais e aproveitamento de resíduos de frutas.
Em julho, 50 participantes foram selecionados para a segunda fase: 25 inovadores vinculados aos desafios e 25 especialistas em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Os grupos participaram de atividades de formação de equipes, aprofundamento das propostas e preparação para apresentar as soluções. As dez tecnologias mais bem avaliadas no Pitch Day avançaram no programa.
A definição dos desafios contou com a participação de organizações comunitárias, entre elas a COOPEACRE, no Acre, e a Vem do Xingu, na região do Médio Xingu, no Pará. As entidades contribuíram com conhecimentos tradicionais, demandas produtivas e oportunidades de agregação de valor identificadas nos territórios.
A análise estratégica das oportunidades de mercado também teve participação do Instituto SENAI de Inovação em Biossintéticos e Fibras, da Firjan, que avaliou o potencial tecnológico, o valor agregado e as possibilidades de aplicação industrial de diferentes biomassas amazônicas.
O programa reúne ainda instituições como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), além da Emerge Brasil e de empresas como Natura, CitroBio, Givaudan, BossaPack e Symrise.
Programa prevê recursos para validação
Com a seleção das dez equipes, o Desafio Bioinovação Amazônia avança para as etapas de validação tecnológica e aproximação com parceiros industriais e organizações comunitárias. A programação prevê residências na Amazônia, apoio técnico e acesso à infraestrutura de pesquisa para aprimorar as soluções e avaliar sua viabilidade.
Cada equipe poderá receber aproximadamente R$ 100 mil para validação tecnológica. O programa também prevê uma premiação final de R$ 450 mil, distribuída entre as três equipes mais bem classificadas.
A iniciativa é conduzida pela ZÔMA, geradora de negócios do Idesam voltada ao desenvolvimento de empreendimentos inovadores a partir da sociobiodiversidade amazônica. A proposta é aproximar comunidades, pesquisadores, instituições científicas e empresas para transformar matérias-primas e conhecimentos da região em tecnologias, produtos e negócios com potencial de impacto socioambiental positivo.



