Política e Economia

Foto: Lucas Trevisan / TV Liberal
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Manifestação iniciou às 5h30, fechou a Blue Zone e exigiu presença real de povos originários nas decisões climáticas, criticando projetos que afetam a Amazônia

O povo indígena Munduruku bloqueou, na manhã desta sexta-feira (14), o acesso à Blue Zone, área mais restrita da COP30, em Belém (PA). O protesto começou por volta das 5h30 e impediu a entrada e a saída de delegações, técnicos e autoridades credenciadas, forçando o governo federal a negociar diretamente com as lideranças indígenas.

A manifestação, pacífica e organizada, tinha um recado direto: exigir que as decisões climáticas discutidas na conferência incluam a participação efetiva dos povos originários — principais impactados por políticas ambientais, energéticas e de desenvolvimento. A liderança Alessandra Munduruku reforçou que o ato não tinha caráter simbólico.
Ninguém entra e ninguém sai. Porque ninguém vai para brincar. Ninguém vai tirar selfie. É o nosso corpo que está na negociação”, afirmou.

O protesto ganhou força com críticas à ausência de representantes indígenas nas mesas de decisão da COP30. Enquanto chefes de Estado e ministros debatem metas de redução de emissões, bioeconomia e investimentos verdes, os Munduruku denunciam que muitos projetos apresentados como sustentáveis continuam afetando diretamente seus territórios.
Já chega de usar a nossa imagem para dizer que é sustentável, de bioeconomia que está matando a nossa floresta”, disse Alessandra. Ela também criticou a falta de serviços básicos nas aldeias e os impactos do garimpo, que contamina rios com mercúrio e ameaça a saúde das comunidades.

Entre as reivindicações feitas ao governo brasileiro, o grupo pediu a suspensão imediata de todos os projetos de desenvolvimento na Amazônia — incluindo mineração, exploração madeireira, perfuração de petróleo e a construção da ferrovia planejada para escoar produção agrícola e mineral. Para as lideranças, essas iniciativas ampliam conflitos territoriais, incentivam a atuação de empresas privadas em áreas sensíveis e colocam em risco florestas e rios essenciais para a sobrevivência dos povos indígenas.

Com a entrada da Blue Zone bloqueada e centenas de credenciados retidos, representantes do governo se mobilizaram rapidamente. Por volta das 9h30, após acordo para uma reunião privada, o acesso foi liberado. Participam do encontro o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara. As lideranças pediam diálogo direto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não estava em Belém nesta sexta.

O episódio expôs uma tensão evidente: enquanto o governo brasileiro tenta consolidar sua imagem de liderança global na pauta climática, povos indígenas denunciam contradições entre os discursos internacionais e os projetos autorizados na Amazônia. O bloqueio dos Munduruku obrigou a conferência a olhar para dentro — para a floresta, para os conflitos e para aqueles que, há décadas, alertam sobre o custo humano da destruição ambiental.

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