Caprichoso homenageia Chico Mendes e encena ritual de cura; Garantido celebra o boi como símbolo nacional e encerra noite com força feminina e resistência indígena
A 58ª edição do Festival de Parintins chegou ao fim com uma noite memorável neste domingo (29). Em uma arena lotada por mais de 40 mil pessoas, os bois Caprichoso e Garantido encerraram suas apresentações com espetáculos que uniram arte, espiritualidade, identidade amazônica e resistência cultural.
O Caprichoso abriu a terceira e última noite do festival com o espetáculo “Kaá-Eté – Retomada pela Vida”. Em uma apresentação marcada por potência estética, engajamento político e misticismo indígena, o boi azul exaltou os povos da floresta e homenageou o líder seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988 por sua luta em defesa da Amazônia.
Logo no início, a imagem de Chico Mendes foi projetada no chão do Bumbódromo, em um gesto simbólico que emocionou a galera azulada. Na sequência, o boi surgiu em uma figura mitológica: um “homem-borboleta” que cruzou a arena acompanhado de efeitos visuais e sonoros. A cena deu início à narrativa da noite, baseada na lenda de Waurãga, a deusa da floresta que desperta para proteger seu território dos invasores.
A força da floresta em cena
Durante a apresentação, o Caprichoso apresentou a lenda dos Wauã-Kãkãnemas, espíritos da floresta que habitam os corpos dos animais e travam batalhas invisíveis contra grileiros, madeireiros e garimpeiros.
Na galera, uma enorme cobra foi manipulada pelos torcedores, enquanto a cunhã-poranga Marciele Albuquerque surgiu no alto de um módulo alegórico como a “mãe das mães da mata”. A apresentação foi embalada pela toada “Turbilhão Azul”, conduzida por Patrick Araújo, em um dos momentos mais eletrizantes da noite.
O ex-levantador de toadas Edilson Santana retornou ao bumbódromo com a música “Utopia Cabocla”, e dividiu a arena com a sinhazinha Valentina Cid e o Touro Negro da Amazônia.
Homenagem a Chico Mendes e ritual indígena
A homenagem a Chico Mendes teve destaque especial. Sua filha, Angela Mendes, entrou na arena segurando a faixa “Amazônia de pé”. O momento foi seguido pela aparição do mapinguari, criatura lendária da floresta, ao lado da porta-estandarte Marcela Marialva.
O amo do boi, Caetano Medeiros, cantou e tocou charango, em uma performance que também provocou o boi rival. Em seguida, a arena foi tomada por uma cena coreografada inspirada em Yacuruna, o ser mítico dos rios. De seu corpo, emergiu a Mãe D’água, interpretada pela Rainha do Folclore, Cleise Simas.
A noite azul foi encerrada com o ritual do povo Yawanawá, do Acre. O pajé Erick Beltrão conduziu o “mariri”, dança circular que invoca a cura espiritual dos doentes. O momento representou a mensagem central da noite: a cura da terra passa pela cura do corpo, da memória e do espírito dos povos originários.
Garantido transforma o Bumbódromo em palco para todos os bois do Brasil
Na sequência, o Boi Garantido apresentou o espetáculo “Garantido, o Boi do Brasil”, exaltando a cultura popular brasileira como expressão de resistência e identidade. Em uma grande celebração, o Bumbódromo se tornou o ponto de encontro simbólico de várias manifestações culturais que envolvem bois de norte a sul do país.
A apresentação começou com a toada “Boi do Brasil”, em um momento vibrante conduzido por David Assayag. A arena recebeu encenações do Boi Calemba, Boi de Orquestra, Boi de Mamão, Boi de Matraca e Boi de Folia, com suas cores, danças e sotaques.
A alegoria principal trouxe o boi Garantido em destaque, revelando também a porta-estandarte Jeve Mendonça e a sinhazinha Valentina Coimbra. Na sequência, o amo JP Oliveira fez uma homenagem ao cantor e compositor amazonense Chico da Silva, com destaque para a icônica “Vermelho”, que fez a arena pulsar.
Mulheres e encantarias das águas
A arena também foi tomada pela presença encantada de Iara, representada pela Rainha Lívia Cristina. Em forma híbrida de mulher e peixe, a Deusa das Águas surgiu como guardiã dos mananciais ameaçados.
O espetáculo também destacou figuras femininas das águas, como Janaína, Mariana e Iemanjá. No entanto, o módulo alegórico que apresentava essas entidades enfrentou problemas técnicos: partes quebradas e trechos inacabados comprometeram a evolução visual da cena.
Um dos momentos mais aguardados foi a transformação da cunhã-poranga Isabelle Nogueira, ex-BBB, que surgiu como uma arara vermelha em homenagem às artesãs indígenas da Amazônia. A cena foi conduzida pela cantora Márcia Siqueira e celebrou o protagonismo feminino na preservação da cultura ancestral.
Ritual de encerramento
O espetáculo do Garantido foi encerrado com o ritual Bahsese, do povo Tukano, do Alto Rio Negro. No centro da arena, os kumuã do pajé Adriano Paketá realizaram um rito de cura com o uso de kahpi, tabaco e paricá, buscando conexão com Buhpó — o “avô do mundo” — e pedindo equilíbrio entre corpo, espírito e natureza.
Durante a apresentação, o tripa Denildo Piçanã passou oficialmente o bastão para seu filho, Denisson Piçanã, simbolizando a continuidade da tradição do boi vermelho.
Disputa acirrada
O Caprichoso busca o tetracampeonato com o tema “É tempo de retomada”, enquanto o Garantido tenta conquistar seu 33º título com “Boi do povo, boi do povão”. O resultado oficial deve ser anunciado nesta segunda-feira (30), em meio à expectativa fervorosa das torcidas azul e vermelha.



