Frequência das secas aumentou quase 30% desde 2000, enquanto Amazônia enfrenta impactos sobre rios, comunidades e atividades econômicas
A frequência e a duração das secas aumentaram quase 30% desde 2000, segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação. O avanço do fenômeno será um dos principais temas da COP17, conferência da ONU que começa neste domingo (17), na Mongólia.
O encontro, realizado em Ulaanbaatar até 28 de agosto, reúne representantes de diferentes países para discutir formas de prevenção e enfrentamento das secas. No Brasil, o fenômeno já atinge as cinco regiões e preocupa especialistas diante da tendência de redução das chuvas e aumento das temperaturas.
Seca atinge todas as regiões do Brasil
Em julho de 2026, pelo menos 157 municípios brasileiros foram classificados em situação de seca severa. O cenário é acompanhado pelo Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), e pelos boletins do Cemaden.
Segundo o órgão, o país apresenta uma tendência de ressecamento, com diminuição dos volumes de chuva e aumento das temperaturas.
A combinação entre menor precipitação e maior evaporação pode agravar a disponibilidade de água e ampliar os períodos de estiagem nos próximos meses.
A seca pode ocorrer de diferentes formas. A meteorológica está relacionada à redução prolongada das chuvas. Já a agrícola compromete a umidade do solo e a produção de alimentos. A hidrológica afeta rios, reservatórios e aquíferos, com reflexos no abastecimento, na geração de energia, na navegação e na biodiversidade.
Amazônia enfrenta impactos sobre comunidades
Na Amazônia, os efeitos das secas ganharam dimensão nos últimos anos. Em 2023 e 2024, rios de diferentes municípios atingiram níveis historicamente baixos, provocando isolamento de comunidades e dificuldades para o transporte de alimentos, medicamentos e outros produtos.
O impacto é maior entre populações que dependem diretamente dos recursos naturais, como indígenas, ribeirinhos, pescadores artesanais, extrativistas e agricultores familiares.
Dados recentes do Cemaden mostram que o número de territórios indígenas atingidos por seca severa passou de três, em junho, para 17, em julho. Entre os locais afetados estão áreas do Amazonas, Pará, Tocantins e Mato Grosso.
Também houve aumento entre assentamentos rurais. As áreas atingidas por seca extrema passaram de duas para 44, enquanto os locais classificados com seca severa subiram de 102 para 309.
Seca relâmpago preocupa pesquisadores
Além das estiagens prolongadas, pesquisadores também acompanham o avanço das chamadas secas-relâmpago. Elas começam rapidamente, podem durar dias ou semanas e costumam ocorrer associadas a altas temperaturas.
O pesquisador Humberto Alves Barbosa, da Universidade Federal de Alagoas, explica que o aumento do calor combinado à redução da cobertura vegetal pode intensificar a aridez e aumentar a vulnerabilidade das regiões atingidas.
Esse tipo de evento representa um desafio adicional para sistemas de monitoramento, já que o intervalo entre o início da redução da umidade e os impactos pode ser curto.
El Niño pode agravar cenário em 2026
Outro fator de preocupação é a previsão de fortalecimento do El Niño entre agosto e outubro deste ano. O fenômeno ocorre quando há aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial e pode alterar a distribuição das chuvas.
No Brasil, os efeitos podem incluir redução das precipitações e aumento das temperaturas em áreas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Para pesquisadores, esse cenário pode elevar a vulnerabilidade a secas prolongadas, secas-relâmpago e queimadas, além de afetar a umidade do solo e a vazão dos rios.
Os impactos também podem alcançar a segurança alimentar. O Programa Mundial de Alimentos estima que os efeitos climáticos associados ao El Niño podem aumentar o número de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda em dezenas de milhões.
COP17 busca ampliar prevenção contra secas
A discussão na COP17 deve se concentrar não apenas na resposta às emergências, mas também em medidas de prevenção e adaptação.
Entre as estratégias estão o fortalecimento dos sistemas de alerta precoce, o monitoramento climático, a recuperação de áreas degradadas, a gestão integrada da água e o apoio às populações mais vulneráveis.
A expectativa é ampliar a cooperação internacional e os investimentos para que os países consigam agir antes que os períodos de seca provoquem impactos ainda maiores sobre comunidades, produção e recursos naturais.
No caso brasileiro, especialistas defendem que o avanço das secas exige planejamento antecipado e políticas capazes de reduzir os efeitos sobre a população e os ecossistemas.



