Maioria é de venezuelanos com ensino superior que enfrentam informalidade no Brasil; novo hub com empresas será lançado na capital
Pelo menos 33 mil refugiados vivem abaixo da linha da pobreza em Manaus, segundo dados exclusivos divulgados pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) ao jornal A CRÍTICA. A maioria é formada por venezuelanos, incluindo profissionais com nível superior, mas que, ao chegarem ao Brasil, acabam recorrendo a trabalhos informais devido às dificuldades de inserção no mercado e barreiras como o idioma.
Desde 2018, mais de 148 mil venezuelanos cruzaram a fronteira para o Brasil, sendo que mais de 100 mil registros de documentação foram realizados somente no Amazonas.
O estado é atualmente o segundo maior destino de solicitações de refúgio da região Norte, atrás apenas de Roraima, segundo relatório recente divulgado pelo Ministério da Justiça, Observatório das Migrações Internacionais (ObMigra) e a própria ACNUR.
“A região amazônica do Brasil é, claramente, a principal rota de entrada de refugiados da Venezuela. Em 2023, 34% de todas as solicitações de refúgio no Brasil foram feitas nessa região”, destacou Davide Torzilli, representante da ACNUR no Brasil.
Vulnerabilidade social
Dados da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) revelam que há 44,8 mil pessoas não nacionais inscritas no CadÚnico em Manaus. A grande maioria — 42.527 — são venezuelanos, mas também há imigrantes de outras nacionalidades.
Para Laura Lima, chefe do escritório da ACNUR em Manaus, o Amazonas já tem experiência em lidar com fluxos migratórios, como no caso de colombianos e haitianos nos últimos anos, mas os desafios persistem.
“Mesmo os brasileiros da região enfrentam dificuldades para acessar seus direitos. Os refugiados acabam vivendo essas mesmas dificuldades, ou até piores”, observou.
Emprego e mercado formal
A ACNUR afirma que o Brasil possui legislação avançada em relação à proteção de refugiados, permitindo que eles tenham acesso a serviços públicos e direito ao trabalho formal. Segundo o Ministério do Trabalho, mais de 140 mil venezuelanos estão registrados formalmente no país.
Mesmo assim, muitos refugiados seguem enfrentando barreiras para se empregar, como a falta de domínio da língua portuguesa e a necessidade de revalidar diplomas estrangeiros. Para mitigar essas dificuldades, a ACNUR desenvolve ações em parceria com empresas privadas e instituições de ensino.
Uma das iniciativas ocorre com a associação Hermanitos, que ajuda na inserção profissional de imigrantes. “É um trabalho de formiguinha, com identificação de talentos, auxílio com transporte e reforço no idioma. Mas é necessário que mais empresas se engajem”, destacou Laura.
A ACNUR também atua com o Ministério Público do Trabalho (MPT) para fiscalizar relações de trabalho e evitar casos de exploração laboral.
Educação e reconhecimento profissional
Outra frente de atuação da agência está no reconhecimento de diplomas de ensino superior. A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) participa da Cátedra Sérgio Vieira de Melo, rede nacional que atua pela revalidação de diplomas e apoio jurídico.
“Temos um projeto no PAC onde estudantes de direito da Ufam prestam atendimento jurídico a refugiados. É uma experiência prática para os futuros advogados e uma assistência essencial para quem precisa”, explicou Laura.
Evento nesta terça-feira (17)
No marco do Dia Mundial do Refugiado, celebrado em 20 de junho, a ACNUR realiza nesta terça-feira (17), em Manaus, o evento “Resiliência Climática e Inclusão Socioeconômica”, com representantes de órgãos públicos, setor privado e da sociedade civil. A programação ocorrerá das 9h às 12h30, no Auditório Floriano Pacheco (Suframa).
Durante o evento, será lançado em Manaus o hub do Fórum Empresas com Refugiados, que reúne mais de 140 organizações engajadas na contratação e capacitação de pessoas refugiadas. A iniciativa pretende ampliar o engajamento de empresas locais para promover inclusão e geração de renda na capital amazonense.



