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Foto: Divulgação
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Equipe multinacional destaca riqueza biológica e importância do conhecimento indígena para a conservação da Amazônia

Em meio ao avanço do garimpo ilegal e da extração clandestina de madeira, um grupo de cientistas de cinco países e especialistas indígenas realizou uma expedição no Alto Rio Içá, no extremo Oeste do Amazonas. Durante 20 dias, a equipe identificou mais de 2.800 espécies de animais e plantas, algumas delas nunca antes registradas no Brasil, reforçando a urgência na proteção da região contra atividades predatórias.

A expedição foi coordenada pelo Field Museum of Natural History (EUA) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e percorreu florestas públicas não destinadas, comunidades indígenas e áreas com uma das maiores diversidades biológicas da Amazônia.

Entre as descobertas, os cientistas identificaram dez potenciais novas espécies de peixes e anfíbios, além de aves como o formigueiro-do-Içá, que recebeu nome popular pela primeira vez. A missão envolveu 71 pessoas, incluindo pesquisadores de dez instituições internacionais e representantes dos povos Kokama, Tikuna e Kambeba.

Conservação e conhecimento indígena

O inventário catalogou mais de 400 espécies conhecidas pelos nomes e usos tradicionais das comunidades indígenas, das quais 135 plantas e 177 animais são utilizados na alimentação, 80 espécies na construção e outras na medicina e práticas culturais.

Para a cacica Milena Kokama, da comunidade Raízes da Ayahuasca, a iniciativa reafirma o valor do conhecimento ancestral na preservação da floresta:

“O conhecimento ocidental e o ancestral devem andar juntos. Preservar a mãe natureza é compromisso e responsabilidade de todos, pois sem ela não existe vida nem futuro”, declarou.

Demarcação de Terra Indígena como medida urgente

A área inventariada, de 463,8 mil hectares, está em processo de solicitação de reconhecimento como Terra Indígena. A expectativa é que os dados da expedição subsidiem a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) na oficialização do território.

Para o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o reconhecimento dessas terras é essencial para frear o desmatamento, que atinge taxas alarmantes nas áreas federais sem destinação específica.

“O grosso do desmatamento ocorre onde não há definição fundiária. Avançar com o reconhecimento é crucial para proteger a biodiversidade”, afirmou Rita Mesquita, secretária de Biodiversidade do MMA.

Preservação da sociobiodiversidade e ocupação tradicional

Além das novas espécies, a expedição também mapeou sítios arqueológicos e registrou modos tradicionais de ocupação do território, como pesca, agricultura rotativa, caça e manejo florestal, essenciais para manter o equilíbrio ecológico da região.

Segundo o antropólogo Jeremy Campbell, coordenador pelo Field Museum, o levantamento ajudará na formulação de políticas de conservação e reconhecimento territorial:

“Registramos novas espécies para a ciência e também evidenciamos a presença humana na região por décadas ou milênios, com sistemas de manejo sustentáveis que os moradores utilizam até hoje”, explicou.

A expedição reforça o papel fundamental das comunidades indígenas na preservação da Amazônia, e ressalta a necessidade de medidas urgentes para frear o avanço da destruição ambiental e garantir a sustentabilidade dos ecossistemas da região.

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