Fumaça suspende aulas, afeta a saúde e paralisa atividades; governo federal mobiliza 11 aeronaves e 290 brigadistas para combater incêndios no estado
O avanço das queimadas colocou 36 dos 62 municípios do Amazonas em situação de emergência, diante do aumento dos focos de incêndio e da piora da qualidade do ar. Em Manaus e no interior, a fumaça provocou a suspensão de aulas, a interrupção de atividades esportivas e o envio de alertas de saúde à população. Para conter as chamas, o governo federal mobilizou aeronaves e brigadistas, enquanto órgãos estaduais e municipais intensificaram as ações de monitoramento e fiscalização.
Incêndios criminosos são investigados
As investigações apontam indícios de incêndios provocados intencionalmente no Amazonas. Em Itacoatiara, oito suspeitos de causar queimadas na zona rural foram identificados pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma). Os casos foram encaminhados à Polícia Civil e ao Ministério Público do Amazonas (MPAM).
Durante um sobrevoo em áreas atingidas, uma comitiva do governo federal identificou focos de incêndio dentro de áreas de mata nativa preservada e em locais isolados, de difícil acesso.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que o cenário indica ação humana intencional e alertou para a possibilidade de uso do fogo para degradar a floresta e preparar áreas para o desmatamento ilegal.
“É fundamental que esses indivíduos que estão agindo criminosamente vejam que serão punidos. Ou seja, é necessário combater a impunidade que está reinando aqui na região”, declarou.
Governo federal reconhece emergência em 36 municípios
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) oficializou, no sábado (10), o reconhecimento da situação de emergência nos 36 municípios. A medida permite ampliar a atuação conjunta das forças de resposta e viabilizar recursos federais para o enfrentamento da crise e a assistência às comunidades afetadas.
O ministro Waldez Góes destacou que as medidas precisam contemplar tanto o combate direto às chamas quanto o atendimento às pessoas prejudicadas pelos incêndios.
“Uma coisa é enfrentar em todas as frentes e empregar toda a força que puder, Governo Federal junto com o Estado e municípios, para apagar o fogo. A outra é assistir pessoas que já estão, de alguma forma, precisando de ajuda humanitária, de assistência médica como resultado do incêndio”, afirmou.
No sábado, aeronaves de combate a incêndios e equipes federais chegaram a Manaus. A estrutura inclui aviões Air Tractor, helicópteros e 290 brigadistas.
No domingo (11), a fumaça reduziu a visibilidade e atrasou a decolagem da comitiva ministerial que faria um sobrevoo de monitoramento. Após visitar áreas críticas, incluindo a região de Autazes, Capobianco classificou a situação como “mais grave do que eu imaginava”, ao encontrar incêndios dentro de floresta preservada.
Uma força-tarefa enviada pelo governo de São Paulo também chegou ao estado com 30 profissionais, entre bombeiros e agentes da Defesa Civil, além de drones e 11 mil litros de retardante de chamas.
Na segunda-feira (12), o governo federal começou a enviar alertas pelo WhatsApp, por meio da conta oficial GovBR. As mensagens orientam os moradores a reduzir a exposição à fumaça, manter os ambientes protegidos, usar máscaras quando indicado e reforçar a hidratação.
Fumaça suspende aulas em Manaus e no interior
A piora da qualidade do ar provocou mudanças na rotina de instituições de ensino. A Prefeitura de Manaus manteve suspensas as atividades da rede municipal nesta terça-feira (13). A Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (Seduc) também suspendeu as aulas nos turnos da manhã, da tarde e da noite nas escolas da capital.
A medida alcançou ainda as escolas estaduais de Autazes e do distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba, em todos os turnos. Segundo a Seduc, as decisões buscam reduzir a exposição de estudantes e profissionais à fumaça.
As orientações seguem a Nota Técnica Conjunta nº 22/2026, da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) e da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP). O documento recomenda evitar atividades físicas e pedagógicas ao ar livre e manter os ambientes internos fechados sempre que possível.
O Instituto Federal do Amazonas (Ifam) também suspendeu as atividades acadêmicas e administrativas presenciais do Campus Manaus Centro nesta terça-feira.
A Federação Amazonense de Futebol (FAF) suspendeu, na segunda-feira (12), as competições das categorias de base por tempo indeterminado. A entidade justificou a decisão pelos riscos que a fumaça representa à saúde de atletas, comissões técnicas e demais profissionais envolvidos nos jogos.
Manaus continua com qualidade do ar ruim
Apesar da chuva registrada durante a madrugada de terça-feira, Manaus continuou entre as cidades com pior qualidade do ar do país, segundo a plataforma internacional IQAir.
No interior, Autazes registrou 139 focos de queimadas nas últimas 72 horas consideradas no levantamento, o equivalente a 19,1% das ocorrências estaduais no período. A qualidade do ar no município foi classificada como péssima.
Os efeitos da fumaça também aparecem nos atendimentos de saúde. Segundo a SES-AM, Manaus registrou 82 atendimentos de urgência por problemas respiratórios atribuídos à fumaça entre 1º e 8 de outubro.
Moradores relatam irritação na garganta, congestão nasal, dores de cabeça e dificuldade para dormir. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias estão entre os grupos que exigem maior atenção durante períodos de poluição intensa.
Focos de incêndio aumentam 271% em outubro
Dados do Painel do Fogo, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que o Amazonas registrou 1.380 focos de incêndio nos dez primeiros dias de outubro. O número representa aumento de 271% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 372 focos.
Quatro municípios amazonenses aparecem entre os 20 com mais ocorrências no país no período:
- Lábrea: 214 focos, na quarta posição nacional;
- Boca do Acre: 174 focos, na oitava posição;
- Autazes: 151 focos, na décima posição;
- Itacoatiara: 75 focos, na 20ª posição.
O levantamento também identificou 1.186 focos em áreas públicas, 246 em assentamentos federais, 116 em terras indígenas e 97 em unidades de conservação. Esses registros podem se sobrepor, conforme a classificação territorial utilizada.
A distribuição dos incêndios também mudou. Além do Sul do Amazonas, que historicamente concentra muitas ocorrências, a Região Metropolitana de Manaus e o Baixo Amazonas passaram a registrar focos expressivos. A ampliação de bases permanentes do Corpo de Bombeiros no Sul do estado foi apontada como um dos fatores relacionados a essa mudança no cenário regional.
Incêndios prejudicam produção agrícola
Além dos impactos ambientais e sanitários, as queimadas provocam prejuízos econômicos. Na comunidade do Jacarezinho, zona rural de Itacoatiara, um incêndio destruiu 256,71 hectares de vegetação, área equivalente a aproximadamente 360 campos de futebol.
Em Parintins, a destruição de lavouras afetou o abastecimento de produtos agrícolas e contribuiu para o aumento de até 100% nos preços de derivados da mandioca, como a farinha.
Força-tarefa reúne 11 aeronaves e 290 brigadistas
O governo federal mobilizou 11 aeronaves e 290 brigadistas de órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Força Nacional.
A estrutura inclui seis aviões Air Tractor, utilizados no lançamento de água sobre os focos de incêndio; um cargueiro KC-390 Millennium, da Força Aérea Brasileira (FAB), com capacidade para lançar até 12 mil litros de água por voo; três helicópteros; e um avião Cessna Caravan, destinado ao transporte de equipes e equipamentos.
As operações estão distribuídas entre Manaus, Autazes, Itacoatiara e Parintins. O planejamento também prevê uma base de apoio aéreo em Itacoatiara para facilitar o atendimento às áreas críticas.
Para terça-feira (13), a previsão apresentada pelas equipes era de três voos do KC-390: um na região de Parintins e dois em Itacoatiara. A continuidade das operações depende das condições meteorológicas e da avaliação das áreas prioritárias.



