Turismo

Foto: Lucas Petroceli
Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Prédio abandonado há cinco décadas guarda história de luxo, tragédia e esperança de renovação

Na rua Salvador, no bairro Adrianópolis, zona Centro-Sul de Manaus, uma estrutura esquecida chama atenção de quem passa: o antigo Hotel Ouro Verde, cuja construção começou nos anos 1970 com a promessa de se tornar um dos mais luxuosos da capital amazonense.

O projeto, idealizado por um comerciante português, tinha um design em formato de “H” e foi iniciado em um terreno adquirido na década de 1960. No entanto, em 1974, as obras foram interrompidas após o diagnóstico de câncer do proprietário, que faleceu no ano seguinte. Sem consenso entre os herdeiros, o empreendimento foi abandonado.

Hoje, o prédio de três andares permanece como um símbolo da arquitetura moderna inacabada, cercado por árvores e pelo avanço urbano. O local virou um depósito improvisado, com carcaças de carros e lanchas enferrujadas, e é usado como estacionamento por estabelecimentos vizinhos.

Segundo o arqueólogo Márcio Amaral, o prédio está sobre uma ilha artificial, estrutura arqueológica elevada com terra e fragmentos cerâmicos, usada para sustentar moradias em áreas de várzea. “Essas ilhas artificiais são estruturas arqueológicas levantadas em áreas de várzea mais altas, com material removido de outras partes e misturado com fragmentos cerâmicos, intencionalmente posicionados para dar sustentação”, explica. “É uma técnica de engenharia indígena muito sofisticada, que mostra um manejo de território e uma densidade populacional expressiva no passado”, complementa.

A descoberta do local e sua história só foi possível graças à participação da Comunidade São Lázaro do Arumandubinha, que encontrou potes de cerâmica entre raízes de árvores. O manejador de pirarucu Walfredo Cerqueira comunicou o achado ao padre Joaquim Silva, que acionou os arqueólogos do Instituto Mamirauá. “Nunca tínhamos escavado assim, a 3,20 m do chão. Foi um trabalho totalmente colaborativo e inédito”, disse Amaral.

O transporte das urnas até a sede do Instituto Mamirauá, em Tefé, exigiu esforço logístico com canoas, acampamentos temporários e métodos artesanais. A viagem entre Fonte Boa e Tefé pode levar até 12 horas por rio, dependendo das condições do curso d’água.

Apesar do abandono, há planos para o futuro. Um dos herdeiros revelou a intenção de transformar o prédio em salas comerciais, aproveitando a localização privilegiada e a proximidade com o Fórum.

Enquanto isso, o Hotel Ouro Verde permanece como um enigma urbano — um monumento à memória, à arquitetura e à esperança de recomeço.

Você também pode gostar

Editorias